sexta-feira, 10 de novembro de 2023

A CATEQUESE TEM A ARTE DE CRIAR IMAGENS SIGNIFICATIVAS



Todos aqueles que andamos na paróquia, ou num movimento da Igreja, temos um apreço muito grande pela catequese. A catequese é a estrutura que traz vida à comunidade cristã, sobretudo a vida como futuro e como promessa. É por isso que lhe temos muita estima. Temos com certeza muitas histórias para contar, daquelas divertidas, que acontecem aos miúdos, ou que são trazidas pelos pais ou pelos catequistas. Já rimos muito, e também, verdade seja dita, também já nos aborrecemos muito. A história que mais serve a este texto é a história de um miúdo a quem chamo Man’el. “Manel, então, quem é Deus? Amor! E quem é Jesus? Amor! E a Igreja, o que é? Amor! E a catequese? Amor!”. O Man’el respondia a brincar Amor, e acertaria sempre, porque é disso que se trata, ainda que para ele não fizesse sentido!

Lembrei-me desta história porque a coisa mais difícil de fazer na catequese é dar sentido, significado, àquilo que eles andam para ali a fazer. Na paróquia e na Igreja já não damos conhecimento a nenhum deles, porque eles sabem tudo à distância de um clique, e também não lhes damos a referência de um santo, de um papa ou de um bispo, porque a veneração deles é devida a um jogador de futebol, ou a alguém de quem nunca ouvimos falar. Nem o conhecimento, nem a referência, nem sequer os valores, porque esses valores também não são diferentes dos da família, da escola, do clube de futebol. Sim, damos Jesus e a graça de Deus derramada nos corações, e, nela, podemos dar a ligação entre as coisas que andam muito desligadas. Mas só lhas damos se lhes conseguirmos chegar! E era aqui que eu queria chegar.


1. A iniciação como criação de imagens significativas 

Andei a investigar uns guias e uns catecismos onde encontrei algumas imagens que gostaria de partilhar. A primeira imagem é trazida por uma palavra difícil, a palavra ‘impregnação’; encontrei-a num pequeno catecismo familiar dos 5-6 anos, como uma estratégia para provocar os miúdos na imitação da postura e dos gestos dos adultos, país ou catequistas. A ideia de que a iniciação é uma impregnação, uma influência lenta, traz a imagem sugestiva de uma palavra emocionante, significativa, a entrar no coração das crianças, para lá deixar qualquer coisa a remoer.

A segunda imagem é trazida pela palavra ‘bebé’, e encontrei-a num percurso A, para as crianças dos 8 aos 11 anos. No ensinamento sobre a criação, do livro do Génesis, ou no ensinamento sobre o ‘sim’ de Maria, na Anunciação, encontrei mais ou menos isto, “Deus cria o mundo em 5 dias, para receber o homem no sexto dia; é como uma mãe que prepara a casa e o seu quarto para receber um bebé”. Ou nestes termos, “Maria disse ‘sim’ e recebeu Jesus no seu ventre durante 9 meses, e teve um bebé nos seus braços durante muito tempo”. A imagem é muito sugestiva para as crianças, que ainda gostam de ser bebés, como o próprio Senhor que chama Abbá, Papá. 

Com certeza que há muitos outros princípios na catequese, porque ela é um exercício complexo e transversal, mas a ideia da iniciação como a criação de uma imagem significativa, para criar nelas qualquer coisa com significado, é fascinante. Na Igreja, e nas paróquias, pensamos muito a iniciação cristã como uma introdução à fé e à vida da Igreja. E bem, porque efectivamente é isso que ela é. Essa tem sido também a minha percepção. Mas sem aquela outra iniciação, mais simples, mais interior, e muito mais anterior, que é a iniciação à semântica, à significação, como descrever a vinda de um bebé, a nossa iniciação cristã fica-se por um palavreado chato.

Não sei se consigo passar a ideia, mas uma iniciação que saiba criar imagens significativas, vai gerar sentimentos, emoção, interiorização e rememoração. O Novo Directório da Catequese parece-me dizer duas coisas muito importantes a este respeito. A primeira é que, em Jesus, “a parábola e a imagem se tornam uma verdadeira pedagogia para revelar o mistério do seu amor” (159). A segunda é que “a experiência humana é um espaço em que Deus fala” (n. 197). Metermo-nos na mentalidade do Novo Directório, implica muito gosto, muita vontade e muito tempo.


2. A iniciação como escuta da voz do Espírito 

Encontrei também, nalguns manuais da infância, uma referência muito clara ao Espírito Santo que desce ao coração das crianças e produz uma coisa nova. O propósito de cada um desses ensinamentos é o de mostrar que Deus é imenso, fala connosco e quer habitar em nós; e de que nós temos a capacidade de o receber, de o sentir, de o conhecer e o amar. Mas dizer todas estas palavras não faria qualquer sentido para uma criança, sem dizer a frase que se segue: “Deus fala, e vem ter contigo, e tu tens ouvidos para o escutar, olhos para o ver, e boca para lhe falar”. Eu pensaria logo “tenho?!”. Sim, parece que temos, e que “assim como Deus anima a criação com o seu Espírito Santo, Ele vem encher o teu coração com a sua presença”. 

É o princípio de que posso captar a voz do Espírito e receber as suas graças no meu coração. Notei, nesse sentido, uma grande insistência na resposta, na expressão, dessa presença interior, no louvor, na adoração, na oração, por meio das quais o Espírito me fala e eu também lhe falo. O Novo Directório também fala do primado da graça, dizendo que “toda a catequese precisa de ser uma catequese de graça, pois é pela graça que somos salvos” (174); e ainda que “a catequese é o anúncio da beleza de Deus que toca o coração e a mente” (175). De facto, como la se diz, Espirito toma a iniciativa, precede-a no seu amor, e, por isso, sabe ir à sua frente. 


3. A iniciativa do amor implica uma pedagogia do amor 

O Novo Diretório para a Catequese descreve a pedagogia divina - a pedagogia de Deus, como uma iniciativa de amor (n. 157); indica que na pedagogia de Jesus “a palavra e o silêncio, a parábola e a imagem tornam-se uma verdadeira pedagogia para revelar o mistério do amor” (159); e que o Espírito é dom e dador de todos os dons (162). Também a pedagogia da Igreja é inspirada na relação educativa de Jesus atestada nas narrativas do Evangelho (164) e, nesse sentido, a pedagogia da catequese há-de ser a pedagogia da encarnação (166). Isto significa que se a pedagogia de Deus é uma iniciativa de amor, a pedagogia da Igreja é uma pedagogia de amor. Talvez com imagens mais significativas, nas catequeses, e nas missas, possamos criar esta afeção, essa emoção, no coração dos nossos Manuel’s. Eu, pecador, me confesso! Ainda assim, não deixa de ser fascinante!


Le grain du blé, Louis Janmot, XIX. O cura de aldeia explica a parábola, com uma espiga de trigo na mão.






quarta-feira, 8 de novembro de 2023

A JUSTIÇA, EM S. TOMÁS

São muitas as questões que se levantam neste momento no país. Se na política tudo é permitido? Se um governo a tudo se pode permitir? Se a 9 empresas nacionais, é permitido o lucro de 4 mil e 500 milhões de euros, neste ano de 2023? Se serão permitidas mais injeções e investimentos milionários, com o dinheiro dos outros, por caprichos pessoais, ideológicos, ou pressões corporativas?

Bento XVI dizia que “cada geração, enquanto procura promover o bem comum, deve perguntar sempre de novo: quais são as exigências que os governos podem impor razoavelmente aos seus próprios cidadãos, e até onde elas podem estender-se? Que autoridade é possível interpelar, para resolver os dilemas morais?” 

O papa acrescentaria a estas perguntas, que “a questão fulcral em jogo é a seguinte: onde pode ser encontrado o fundamento ético para as escolhas políticas?” (Ao parlamento inglês, a 17 de setembro de 2010).

1. A Justiça.

No fundo, o que perguntamos é: “o que é a justiça?” e “como posso ser justo?” 

A este respeito fui procurar respostas em S. Tomás de Aquino, e que aqui exponho, sem muito rigor e de forma muito simplista. Porque Tomás de Aquino é um gigante, e porque escreveu um Tratado sobre a Justiça (Suma Teológica, II-II), com 66 questões, em 350 artigos, maior que  o Tratado sobre a Caridade (24 questões), o Tratado sobre a Fé (16), ou o Tratado sobre a Esperança (6). É imenso!!

Para São Tomás, “a justiça é um hábito pelo qual, com vontade constante e perpétua, atribuímos a cada um o que lhe pertence” (II-II, q. 58, a.1). 

Em primeiro lugar, a justiça nasce da vontade constante e perpétua. “Dar a cada um o que lhe pertence não pode proceder do apetite sensitivo; não pode ter como sujeito o irascível ou o concupiscível, mas só a vontade. A justiça é a retidão da vontade” (a.4).

Em segundo lugar, enquanto que as virtudes da fortaleza e da temperança se dirigem à perfeição do próprio acto, a virtude da justiça orienta o acto para a relação justa com o próximo, com a comunidade e com Deus, dando a cada um o que lhe pertence.

Assim, prestamos a Deus a justiça da nossa religião, que é amor, e reverência, bem como a oração da mente e a devoção do coração, a que seguem os actos exteriores da oblação, do sacrifício, do voto. Aos nossos pais, aos formadores, e aos superiores, oferecemos a justiça da nossa veneração, que é respeito, honra e obediência. Ao outro, ao próximo, à comunidade, e até ao estranho, prestamos a justiça da nossa civilidade, expressas na gratidão, restituição, verdade, afabilidade, liberalidade, amizade. (I-II, Q. 60, a 3)

Vemos desta forma que, para S. Tomás, a justiça é igualdade proporcional, ou seja, a justiça é devida a todos os homens de acordo com a natureza humana, e também de acordo com a relação que têm na comunidade. Uma justiça igualitária poderia representar um dano, por omitir ou errar o devido a alguém, ou um lucro (um excesso), ao retribuir em demasia! 

“Chama-se ‘nosso’ ao que nos é devido por uma igualdade proporcional; o ato próprio da justiça não consiste senão em dar a cada um o que lhe pertence. Como diz o Filósofo, tudo o que ultrapassa a medida, em matéria de justiça, é chamado, por extensão, lucro; assim como tudo o que não a atinge chama-se dano (a.11).

2. O legislador honra a justiça natural e o direito natural.

Para S. Tomás, dar o que é devido é dar o que está estabelecido por natureza, ou seja, é exercer uma justiça natural, é exercer uma ação conforme a natureza da pessoa e o sentido comunitário do viver em conjunto (q.57, a.1); e dar o que é devido é também dar aquilo que está estabelecido por lei, ou seja, é exercer uma justiça particular, que está escrita na letra da lei humana.

O conteúdo desta justiça natural é o direito natural, e o conteúdo desta justiça particular é o direito positivo, chamado direito das gentes (q. 57, a.1). O direito natural é o sentido comunitário, a percepção comunitária, não escrita, do que é próprio do ser homem, do ser pessoa relacional - é uma espécie de sensus communitatis ao jeito do sensus fidelium, do papa Francisco! 

O direito natural é a apropriação comunitária, ou a apreensão comunitária, da lei natural inscrita na natureza de cada pessoa, de cada singular.

Um legislador tem de saber - saborear! de justiça natural e de direito natural, antes de saber da justiça particular escrita e das leis humanas escritas. Tem de estar absolutamente convicto de saber o que é uma pessoa, e uma pessoa numa família, numa escola, numa aldeia, num hospital, numa empresa, etc., para só depois a tratar como voto, número, estatística, sondagem. Doutra maneira, como disse J. Ratzinger ao parlamento inglês, vai viver sem um sólido fundamento ético, e executar soluções pragmáticas, inadequadas, e de curto prazo, às novas problemáticas sociais e éticas.

A Comissão teológica internacional, no texto Em busca de uma ética universal, novo olhar sobre a lei natural, de 2009, no n. 92, afirma a este propósito:

“O direito natural é aquilo que é naturalmente justo antes de toda formulação legal. Ele se exprime em particular nos direitos subjetivos da pessoa, como o respeito a sua vida e a sua integridade, a liberdade religiosa e de pensamento, o direito de constituir uma família e de educar os filhos segundo suas convicções, o direito de se associar com os outros, de participar na vida de uma coletividade”.

“O direito natural é a ancoragem das leis humanas na lei natural. Ele é o horizonte em função do qual o legislador humano deve se guiar quando emana normas na sua missão de servir ao bem comum. Nesse sentido, ele honra a lei natural, inerente à humanidade do homem” (Cti, n. 89).

3. A justiça geral, a justiça distributiva e a justiça cumulativa. 

S. Tomás divide a justiça em três grandes blocos, a justiça geral, a justiça distributiva e a justiça cumulativa (q. 61, a.1).

A justiça geral é a justiça que enquadra a relação com o todo, como vimos em cima. 

A justiça distributiva é a justiça que existe na relação entre o comum e o particular, entre o todo que concede o que é devido às partes. 

A justiça cumulativa é a justiça estabelecida na relação de um indivíduo com outro indivíduo, entre uma parte que concede o que é devido à outra parte, por exemplo, na compra e venda, na entrega e na recompensa. 

A justiça distributiva regula a distribuição de acordo com a proporção geométrica, e não de acordo com a igualdade quantitativa, ou seja, a justiça distributiva considera o ‘meio-termo do real’, mais do que o ‘meio-termo do racional’. Ela considera a condição da pessoa na comunidade.

A justiça cumulativa regula a comutação de acordo com a proporção aritmética, ou seja, de acorde o com a restituição proporcional (q.61, a.2).

Mas todas, a justiça geral e a justiça especial, com os seus conteúdos do direito natural e do direito positivo, e as suas especializações na justiça distributiva, cumulativa é legal, todas se orientam para fazer o bem considerado como um dever para com Deus, para com a comunidade e para com o próximo (q.79, a.2).

Conclusão

O que espanta no esquema de S. Tomás é que a virtude da justiça é o acto correcto de uma relação. Se lhe acrescentarmos a graça do Espírito Santo, torna-se o dom da piedade, e, por fim, em acto continuo, torna-se a satisfação da bem-aventurança que diz “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados”. 

Tudo isto para dizer que ainda falta muito, Senhor!


segunda-feira, 30 de outubro de 2023

A FALTA DE EXERCÍCIO DISSOLVE MUITAS AMIZADES

São Tomas de Aquino, citando Aristóteles, diz que ‘a falta de exercício dissolve muitas amizades’ (Q.53,a.3). Não temos dúvida de que assim é, e de que a falta de encontro diminui a relação, como a falta de trabalho diminui o empenho, ou a falta de estudo tira a capacidade. A falta de exercício do bem leva, de facto, à diminuição e à perda do bem. 

A esta falta, S. Tomás chama de ‘privação’. A privação não existe, não tem realidade; ‘não tem natureza nem essência’, ‘nem forma, nem matéria’, no dizer de Aquino. É ausência, é derrota, é falta de alcance.

Note-se que São Tomás, quando fala de bem e de bondade, não aponta apenas para o que concebemos como bem; o bem é o movimento para a perfeição a que somos chamados e, por isso, é o fim último para que tendemos. ‘O bem é aquilo que leva à perfeição’. 

Deus criou um ecossistema de bem, onde todos os seres tendem para a sua perfeição. Criou seres que não têm conhecimento e apenas tendência natural, como as plantas; com conhecimento sensitivo e apetite natural, como os animais; com conhecimento racional e vontade racional - os seres humanos; com conhecimento espiritual e dileção, como os anjos! 

No universo ordenado, todos os seres tendem para qualquer coisa. A erva tende a crescer, o cordeiro a comer a erva, o leão a caçar o cordeiro, o homem a guardar o leão, o anjo a guardar o homem! Tudo está ordenado convenientemente, conforme o seu bem e a sua finalidade!

O ser humano distingue-se pelo seu intelecto e pela sua vontade, orientados para o conhecimento e para o amor. Maximamente, para o conhecimento e amor de Deus. Somos seres dotados de liberdade, e como tal, de abertura e amplitude, ou do seu contrário, de diminuição e perda do alcance. 

Às vezes, por incapacidade, má formação ou ignorância, não acertamos no bem, e escolhemos um bem aparente, ou errado, que nos leva a agir não conforme àquilo que gostaríamos de ser. Assim, ‘a deficiência do agente produz uma ação deficiente’; e ‘um agente corrompido, deficiente de bem e privado de felicidade produz uma ação corrompida, deficiente de bem e privada de felicidade’. 

A falta de bem é uma privação. ‘O mal é a falta do bem natural’ (Q. 49, a.1).


Segundo São Tomás, o mal é o efeito da ‘desconsideração’ do homem pela sua própria razão, é o efeito da redução do homem às paixões da concupiscência (o desejo, o prazer, o ódio, a aversão) e da irascibilidade (o desespero, a ousadia, o medo, a raiva).  

O mal é a incapacidade de fazer o bem; é incapacidade de estar à altura da condição humana, de realizar-se como tal e de ser feliz. O mal é uma baixeza, uma bestialidade, que faz com que as nossas faculdades humanas se apaguem e se reduzam às faculdades sensitivas. O mal tende à sua própria destruição.

Quando Hanna Arendt falava da ‘banalidade do mal’, e dizia que ‘não eram monstros, mas sujeitos medíocres, que tinham renunciado a pensar’, queria dizer que os oficiais alemães tinham renunciado à sua capacidade de conhecer e à sua vontade de amar. Tinham descido baixo na sua condição humana, a ponto de quererem que os judeus se reconhecessem desprovidos de natureza humana. 

Para todos os casos de guerra, somos seres humanos e seres-capazes-de-sentido. Não brutos. 

Em todos as circunstâncias, precisamos de fazer pequenos movimentos de bem. A falta de exercício torna-nos como os brutos.


quinta-feira, 26 de outubro de 2023

In the Name of God, the Most Merciful, the Most Compassionate


A ideia do texto é mostrar, em primeiro lugar, que já não há dois blocos, e, que, por isso, não pode haver um choque de civilizações; em segundo lugar, mostrar que não podemos tomar o subproduto da facção pelo todo étnico ou religioso; em terceiro, que está em início um movimento de diálogo e de familiaridade entre líderes que se pode estender por vários sectores da sociedade.

Em quarto, escutar alguns discursos do “lado de lá”.

Tive a oportunidade de rezar e de conversar com muçulmanos num grupo chamado Ensemble avec Marie. Foi a primeira vez que aconteceu e fez-me muito bem. 

Fez bem porque permitiu trazer luz ao medo do islamismo crescente, do islamismo político e do choque de civilizações. 

O Hamas, o Hezbollah, a Al-Qaeda, o Daesh, o Boko Haram, e os outros movimentos fundamentalistas, no Médio Oriente, na Península Arábica, no Centro de África e no Paquistão, causam-nos medo, e o recente massacre e brutalidade em Israel, terror. Temos medo, um medo colectivo, de que chegue à Europa, e à nossa terra. 

E é possível que já tenha chegado e que, de qualquer forma, ja nos tenha atingido a todos: ‘antes, a guerra era feita no campo de batalha, entre províncias; depois, passou a ser nacional; posteriormente, em dois grandes blocos (leste/oeste). Hoje, num paradigma global, a guerra é global, aparece inesperada e atinge-nos a todos’. 

Esta parte do discurso do Grande Iman de Al-Azhar, ao papa Francisco, no Bahrein, a 4 de novembro de 2022, mostra-nos que o paradigma da guerra já não é o confronto entre dois blocos oponentes, por exemplo, o mundo cristão versus o mundo islâmico, mas, num paradigma global a guerra global.

Na realidade, assistimos a essa guerra global, por todo o lado, com milícias dentro dos estados e constituições dentro doutras constituições, num movimento global, que é interno ao próprio mundo árabe, tanto como o Hamas, dentro da Autoridade Palestiniana, contra o seu próprio presidente Mahmud Abbas. É por já não haver dois blocos, que não se fala de choque de civilizações. Tudo é global, até a guerra.

E esse paradigma global da guerra chegou até nós. Não é só para evitar a escalada militar que Biden, Macron, e outros, se empenham atualmente em múltiplos esforços de contenção. É também por terem um problema nas suas casas, como vimos nas manifestações pro Palestina. O novo paradigma está perto de nós, pela geografia e pela estimativa de 50 mil fundamentalistas islâmicos residentes na Europa (1), e ainda pela história de atentados em Espanha, França, Bélgica, Alemanha, Londres. Temos razão para esse medo colectivo.

Se metermos no mesmo saco - coisa que não podemos fazer, e os exemplos servem apenas para ilustrar a preocupação colectiva -, a triplicação de mesquitas e de lugares de culto, de barcos do Mediterrâneo, e de refugiados de todo o lado, a preocupação cresce por as coisas serem muito diferentes de há 20, 40 ou 60 anos.

Se acrescentarmos - para ilustrar ainda a nossa preocupação, que 65% dos estudantes franceses muçulmanos afirmam que as leis da religião são mais importantes do que as leis da Républica (2), e que mais de 40% de adolescentes já se manifestaram no seu estabelecimento de ensino contra alguma forma de descriminação, mais o número de conversões de franceses ao Islamismo, cerca de 4 mil/ano (3), parece haver razões fundamentadas para a desconfiança.

O que se passa é que vivemos num mundo global, com asiáticos, árabes, africanos, sul americanos, europeus, e judeus, por todo o lado, e como nos conhecemos pouco, acabamos por tomar o sub produto ideológico de qualquer facção pelo todo da etnia ou da religião. 

Foi por esta razão que procurei saber quem são os responsáveis do “lado de lá “ e o que dizem os seus interlocutores. Notei, em primeiro lugar, que o terrorismo despontou um conjunto de conexões, congressos e cartas comuns, por todo o mundo árabe, assinadas pelos mais altos responsáveis, sobretudo do mundo sunita. 

São a Mensagem de Amman, de 2004, o Appel e Parole Commune, de 2007, o Centro de Doha, de 2008, o Apelo de Meca, de 2008, o Centro internacional do Rei Aballah, de 2012, os documentos comuns de al Azhar de 2011, 2012 e 2014, a Declaração de Marraquexe, de 2016 (4), a Carta da Fraternidade, de 2019, etc. 

Sobressaiem das cartas e das figuras deste movimento de diálogo inter-religioso, o Papa Francisco e Ahmed al-Tayyed (5), o Grande Iman de al-Azhar e Presidente do Grande Conselho dos Sábios, e a Carta da Fraternidade, assinada por ambos e que faz um caminho de diálogo que já passou pelo Egipto, Emirados e Bahrein.

O Papa e o Brande Iman são responsáveis de um novo passo no diálogo inter-religioso, que é a passagem da diplomacia entre as lideranças à familiaridade dos líderes religiosos. Hoje, a amizade entre os líderes religiosos é tida e desejada como o movimento prévio à familiaridade alargada entre as duas culturas. 

(Seguem-se algumas frases dos discursos do Grand Iman de al-Azhar).



1 https://lesalonbeige.fr/le-nombre-dislamistes-capables-de-passer-a-lacte-est-evalue-dans-lunion-europeenne-a-50-000/

2 Le Figaro, em 17-12-2021

3 Estima-se a conversão de 4 mil franceses ao islamismo e a conversão 400 muçulmanos ao Catolicismo, por ano ( a ‘apostasia’ não é crime em França, mas os convertidos podem ficar interditos de entrarem nos seus países, por exemplo, na Argélia)

4 Os sítios de internet: www.ammanmessage.com; www.acommonworld.com;

5 Ahmed Mohamed el-Tayeb é o imã da Mesquita de al-Azhar e Reitor da Universidade com o mesmo nome , do Cairo, Egito, desde 2010. Possui um doutoramento em filiosofia islâmica pela Universidade Paris-Sorbonne e expressou o seu apoio para uma liga sufista global. Al-Tayeb, que em seu cargo de Grande Ima de al-Azhar é amplamente considerado como a autoridade máxima no mundo muçulmano sunita.

terça-feira, 24 de outubro de 2023

A REDE 2.0 - O OURO NEGRO E AS MUDANÇAS CULTURAIS DO SÉCULO. XXI

O texto de Renaud Laby afirma o seguinte:

“Os gigantes digitais inscreveram a semelhança social nas estruturas técnicas da máquina para manter o usuário da web online o maior tempo possível para que ele deposite o máximo de dados. Relacionámo-nos, de facto, mais livremente e por mais tempo com aqueles que se parecem connosco. Essa massa de informações rentabilizadas é o combustível, o ouro negro do século XXI. Essa é a economia da web! Graças ao modelo de captação de dados, os grupos que fornecem os serviços mais utilizados online encontram-se no coração da rede e erguem-se em monopólios. GAFAM (Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft), mas também NATU (Netflix, Airbnb, Tesla e Uber) são os paradigmáticos.”

Segundo o autor mencionado em cima, que é um padre católico, estudioso dos media e, sobretudo, dos media utilizados pela Igreja católica, a ‘ferramenta’ da internet passou por várias fórmulas de cálculo, parâmetros, de forma a medir, a avaliar, a propor e a induzir. O primeiro parâmetro foi a ‘medida de audiência’ que avaliava a popularidade por meio da contagem de clics; depois, veio a ‘medida da reputação’ que avaliava pela contagem de likes e tweets; hoje, diz R. Laby estamos num


novo paradigma, a que chama a ‘medida preditiva do comportamento’. 

Com a designação ‘medida preditiva do comportamento’, o autor descreve aquilo que hoje todos sentimos, a internet parece conhecer-nos, aos nossos gostos, comportamentos, e vem ao nosso encontro com aquilo de que precisamos. De facto, os traços de comportamento que deixamos em linha - clics, likes, visualização, navegação, localização -, são calculados para probabilizar, recomendar, propor… E assim ficamos mais focados nos nossos interesses e mais tempo nas plataformas.

Isto não é novo, e conhecemos o que está a acontecer. Mas será que traz alguma alteração na recomposição da sociedade e alguma mudança na nossa antropologia? A resposta é afirmativa. Na verdade, ‘as operações informáticas afectam as nossas estratégias cognitivas de pensamento’, na medida em que cada um de nós, na sua singularidade, procura entidades e realidades mais parecidas consigo. Assim, a internet traz-nos

- um mundo mais horizontal, sem instituições de poder ou sequer intermediários, em que tudo, ao estar em pé de igualdade, será hierarquizado segundo a nossa própria escala de valores;

- um mundo mais segmentado, sem percepção da globalidade de pessoas, pensamentos e culturas, que será standardizado de acordo com o próprio interesse;

- um mundo mais agregado num colectivo, numa associação, sem centro, de acordo com a forma de apreciação.

Para o autor, está nova realidade de recomposição da sociedade e do indivíduo, é um novo realismo, um ‘metarealismo’, em que se alterou a 

- a relação com o saber - todas as informações estão disponíveis (mas não existe a capacidade de fazer conexões ou investigação, ou dar significação);

-  a relação com a verdade - todas as notícias podem ser verdadeiras ( tudo aquilo que se encontra na internet, na ‘hyperesfera’’, é acreditado, mais que noutras fontes); 

- a relação com o tempo - tudo é instantâneo (propor processos faseados, processos de aprendizagem, processos de reflexão é um enorme desafio);

- a relacionámo-nos a autoridade - todos os centros de associação não têm um centro comum ( não existe um princípio de referência central; quem tem o poder já não é o responsável político, económico, científico, ou religioso, mas quem tem popularidade, quem cria ‘followers’).

A máxima “medium is message” de Marshall McLuhan, com a qual o autor pretende afirmar que o instrumento acaba torna-se mais performativo e transformador do que a própria mensagem, faz todo o sentido. 

Se o alfabeto, que é uma sucessão linear de letras, palavras e frases, transformou o nosso pensamento nómada num pensamento discursivo, semântico e linear; se a mecânica tipográfica moldou-o num pensamento mecânico, analítico e objectivo… muito mais os utensílios da hyperesfera mudarão a nossa estrutura de pensamento, de coexistência e de visão do mundo.

 ( em formulação)


sábado, 21 de outubro de 2023

A ORDENAÇÃO DE HOMENS

A ORDENAÇÃO DE HOMENS 

Resumo: como a masculinidade de Cristo - impressa como carácter no ministro ordenado, pelo sacramento da ordem - é o meio pelo qual o Senhor fecunda o seio virginal da Igreja, e continua a gerar e alimentar os filhos da Igreja. 

INTRODUÇÃO 

Com este escrito, pretendo tratar da possibilidade ou não da Igreja católica conferir a ordenação sacerdotal às mulheres. É um tema muito debatido fora da Igreja, entre os seus amigos e no seu próprio seio.

Não queria começar sem dar alguns contextos, sem os quais o argumento ficaria mais pobre. É o contexto da revelação e da fé, o do amor de Jesus e dos apóstolos para com as mulheres, e o da legitimidade da diferença.

O primeiro contexto é o contexto da revelação e o da fé. O ministério ordenado reservado aos homens e a possibilidade ou não de ser conferido às mulheres não podem ser vistos sem o contexto da revelação. Deus revela o seu desígnio e as suas palavras de muitas formas e modos, a começar na criação, no homem e na sua consciência , nos profetas e nas circunstâncias da história, sobretudo em Jesus. Não podemos avaliar o ministério ordenado a partir da sua contingência histórica, isolado do plano de Deus e do mistério de Cristo e da Igreja.

O segundo contexto é o de que Jesus e os apóstolos amavam muito as mulheres! Aliás, Jesus chama os ‘discípulos’ e constitui-os em ‘apóstolos’, rodeado de mulheres, como a Maria Madalena, a Marta e a Maria, a Joana, a Susana, e ‘muitas outras’, a Samaritana, a Cananeia, a Hemorroíssa, a Mulher adúltera. O grupo dos apóstolos, como sabemos, integrou depois Matias e Paulo, o qual escolheu Tito e Timóteo, também rodeados de mulheres, como a Priscila, a Lidia, a Febe, etc. Jesus, Pedro, Francisco, os bispos, têm veneração às mulheres, apreço, não exclusão.

O terceiro contexto é o contexto da legitimidade do diálogo. Nós vivemos, hoje, num contexto plural, em origens, línguas, culturas, religiões e pensamento; neste contexto, preservamos muito a diversidade e, ao mesmo tempo, com contradição, procuramos a uniformidade. É importante reconhecer que a diversidade é o fundamento do diálogo, e que a diferença de tradição é interessante e criativa. Manter a formulação de determinado conteúdo de fé e poder ser reconhecida por isso, faz com que a Igreja não precise de ser igual ao mundo e o mundo igual à Igreja. 

O MAGISTÉRIO PONTIFÍCIO 

Enumero algumas declarações dos papas a este respeito:

- o papa Pio XII declarou na Encíclica “Sacramentum Ordinis”, 5, que ‘a Igreja não tem qualquer poder sobre a substância dos sacramentos’, apenas na forma da administração dos sacramentos. Pio XII não aborda diretamente a questão da ordenação das mulheres porque a questão não se punha.

- o papa Paulo VI declarou, na “Resposta à carta de Sua Graça, o Rev.do Dr. Coggen”, de 30-11-1975, que ‘a Igreja defende que não é admissível ordenar mulheres para o sacerdócio, por razões verdadeiramente fundamentais’, explicitando-as na Sagrada Escritura, na prática constante das Igrejas do Oriente e do Ocidente, e no magistério vivo, como fazendo parte do ‘plano’ de Deus para a história. Na “Alocução sobre o papel da mulher no desígnio da salvação”, de 15-10-1976, explica que ‘a verdadeira razão é que Cristo, ao dar à Igreja a sua fundamental constituição, a sua antropologia teológica, assim o estabeleceu’.

- o papa Paulo VI deu mandato à Comissão teológica internacional para estudar e redigir a Declaração “Inter Insigniores”, sobre “O lugar da mulher na sociedade moderna e na Igreja”, de 1976, onde se afirma que ‘a Igreja por um motivo de fidelidade ao seu Senhor não se considera apta para admitir as mulheres à ordenação sacerdotal’. 

- o papa João Paulo II, na Carta apostólica “Ordinatio sacerdotalis”, de 22-05-1994, no n. 4, escreve: ‘Declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres e que esta sentença deve ser considerada definitiva por todos os fiéis da Igreja’. 

- o papa Francisco na entrevista de 22-11-2022, à agência America Media disse: ‘acho que amputamos o ser da igreja se considerarmos apenas o caminho da dimensão ministerial (ministerialidade). O caminho não é apenas o ministério [ordenado]. A igreja é mulher. A igreja é uma esposa. O princípio petrino é o do ministério. Mas há outro princípio ainda mais importante, sobre o qual não falamos, que é o princípio mariano, que é o princípio da feminilidade na igreja, da mulher na igreja, onde a igreja vê um espelho de si mesma porque ela é uma mulher e uma esposa. Há uma terceira maneira: a maneira administrativa. O caminho ministerial, o caminho eclesial, digamos, Maria, e o caminho administrativo, que não é uma coisa teológica, é algo de administração normal. Portanto, existem três princípios, dois teológicos e um administrativo. O princípio de Petrino, que é a dimensão ministerial, mas a igreja não pode funcionar apenas com essa. O princípio mariano, que é o da igreja conjugal, a igreja como cônjuge, a igreja como mulher. E o princípio administrativo, que não é teológico, mas sim o da administração, sobre o que se faz’.

RAZÕES FUNDAMENTAIS  

Do magistério pontifício, podemos retirar algumas razões que sustentam as declarações relativas à ordenação de homens:

- em primeiro lugar, a da Sagrada Escritura, que revela o chamamento que Jesus faz aos ‘discípulos’ e a constituição dos mesmos como ‘apóstolos’; 

- em segundo lugar, a prática dos apóstolos e a ‘prática constante’ bimilenar da Igreja do Ocidente e das Igrejas do Oriente, como grande testemunho da igreja universal;

- em terceiro lugar, o magistério ‘vivo’, a interpretação dinâmica e contínua, que, na Igreja, é feito pelo colégio episcopal;

- em quarto lugar, a natureza sacramental, que nos mostra que a economia sacramental está baseada em sinais naturais e em símbolos inscritos na nossa psicologia, precisando o sacerdócio de Cristo de se desempenhar na semelhança natural (Cf. Inter Insigniores):

- em quinto lugar, o ‘plano’, o desígnio ou o ‘mistério’ de Deus, desvelado na criação, na história, em Jesus e na Igreja. Esse plano é o princípio original, que no Génesis se apresenta na forma de um diálogo - e ‘Deus disse, façamos o homem’ -, e que se tornou, na Escritura, um ‘princípio permanente de diálogo’, entre Deus e a Palavra, o Criador e a criação, Adão e Eva, o esposo e a esposa, o rei e a cidade, entre Cristo e a Igreja. Este diálogo dá forma à criação, à economia da salvação e à ‘economia do mistério de Cristo e da Igreja’ (Inter Insigniores). Esta dinâmica da antropologia teológica, de que falava Paulo VI, é a dinâmica de que é feita a Igreja, donde nasce o ministério ordenado e a comunidade dos crentes;

- por último, e na continuidade da dinâmica interna da comunicação na economia da salvação, podemos articular o ‘princípio original da Igreja’ com o ‘princípio profético da Igreja’, que o papa Francisco  chama de ‘princípio petrino’ - o principio institucional, mais objectivo, que engloba o contacto directo com Cristo, a compreensão da Sua pessoa e do Seu ministério, e o entendimento da vocação e da missão do grupo dos doze; e de ‘principio mariano’ - que é o ‘princípio profético e carismático’, a dimensão maternal, carismática e criativa da Igreja (1)

         QUAL É O MELHOR ARGUMENTO?

Não sei se conseguimos responder a esta pergunta, uma vez que cada um poderia seguir um filão. 

Hoje, na mentalidade dos nossos contemporâneos, torna-se mais complexa a dimensão ‘representativa’ - no sentido, de tornar presente Cristo.

No âmbito sacramental, a dúvida dirige-se à forma natural, imagética, iconográfica, do Senhor Jesus se tornar presente à Igreja, e poderia formular-se no raciocínio de que, ‘uma vez que o Senhor se une a todos, pode falar através de todos, poderia também ser representado por todos’. 
 
No fundo, resume-se na expressão de que ‘se todos os crentes agem de alguma forma in persona Christi poderiam também representá-Lo no ministério ordenado’. O raciocínio colhe com facilidade na nossa mentalidade. 

No âmbito funcional, a dúvida dirige-se à função desempenhada, e formula-se na afirmação de que ‘as mulheres podem fazer tudo aquilo os homens fazem’. Esta dúvida é legítima, porque ‘objectivamente’ uma mulher pode fazer aquilo que um padre ‘faz’. 

Parece-me que integrar a representação sacramental de Cristo na entrega de si à Igreja, na unção do Espírito Santo, na continuidade das outras dinâmicas dialógicas e relacionais, da criação, da antropologia, da revelação e da Igreja, ajudam-nos muito a fundamentar a administração da ordem a homens. 

Na verdade, Cristo conforma-se, canaliza-se, por meio do carácter sacramental, à pessoa do ministro, e serve-se dela para continuar a fecundar a esposa, e gerar e alimentar os filhos nascidos do seu ventre virginal. Quero dizer, que a masculinidade de Cristo é eficiente, criativa e dinâmica, e tem de canalizar-se por meio da masculinidade dos seus ministros. 

Desta forma, uma perspectiva teológica da ordenação de homens pode começar por considerar a masculinidade de Cristo - continuada na noção do carácter do sacramento da ordem - e, por isso, masculinidade impressa, decalcada, no ministro. 

(1) V. Balthasar e J. Ratzinger também elaboram estes dois princípios petrino e mariano, ou petrino e paulino. A relação destes dois princípios - dos dons hierárquicos e dos dons carismáticos, conforme a Lumen Gentium -, visam determinado fim, que é o Corpo eclesial, e operam-se em vista desse fim. 

(2) Representativa, mesmo no sentido de ‘tornar presente’.

        A 4a RESPOSTA ÀS DUBIA 

O papa Francisco respondeu no passado dia 2 de outubro de 2023 às questões - dubia - de cinco cardeais, levantadas no contexto de abertura do Sínodo sobre a comunhão, participação e missão. A 4a questão perguntava diretamente se a teologia da Igreja católica tinha mudado e se poderia conferir a ordenação sacerdotal às  mulheres. Elaborava-se da seguinte forma: ‘Também pergunta se o ensino da carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis de São João Paulo II, que ensina, como verdade a ser considerada definitiva, a impossibilidade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, ainda é válido, de modo que esse ensinamento não esteja sujeito a mudanças ou à livre discussão de pastores ou teólogos’

O papa respondeu, ou alguém por ele, de uma forma insólita à 4a questão nos pontos b e c que seguem:

B) Quando São João Paulo II ensinou que se deve afirmar «de forma definitiva» que é impossível conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, ele de forma alguma denegriu as mulheres e conferiu o poder supremo aos homens. São João Paulo II também afirmou outras coisas. Por exemplo, que quando falamos de poder sacerdotal, «estamos no conceito de função, não de dignidade e santidade». (São João Paulo II, Christifideles Laici, 51). Estas são palavras que ainda não recebemos o suficiente. Ele também afirmou claramente que, embora apenas o padre presida à Eucaristia, as tarefas «não dão origem à superioridade de alguns sobre outros» (São João Paulo II, Christifideles laici, nota 190; Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração Inter Insigniores, VI). Ele também afirmou que se a função sacerdotal é «hierárquica», não deve ser entendida como uma forma de dominação, mas como «totalmente ordenada à santidade dos membros de Cristo» (São João Paulo II, Mulieris dignitatem, 27). Se não entendermos isso e não tirarmos as consequências práticas dessas distinções, será difícil aceitar que o sacerdócio seja reservado apenas aos homens e não poderemos reconhecer os direitos das mulheres ou a necessidade de elas participarem, de várias maneiras, na conduta da Igreja.

C) Por outro lado, para ser rigoroso, reconhecemos que uma doutrina clara e autoritária sobre a natureza exata de uma «declaração definitiva» ainda não foi elaborada de forma exaustiva. Esta não é uma definição dogmática, no entanto, deve ser aceite por todos. Ninguém pode contradizê-la publicamente e, no entanto, pode ser estudada, como no caso da validade das ordenações na Comunhão Anglicana. 

Parece-me uma resposta que não vai de encontro àquilo que foi dito em muitas outras ocasiões pelo papa Francisco. 


 

 

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

O DISCURSO DE MARSELHA


O DISCURSO DE MARSELHA 

Escrito a 25-09-2023


O Papa Francisco habituou-nos a determinados slogans, simples e fáceis, que, no fundo, são enumerações de princípios humanos, sociais e eclesiais. Esses slogans são uma espécie de instruções de pilotagem, para abrir caminho à tripulação e dar-lhe andamento. Outros terão de dar contexto, fundamento e desenvolvimento. Essa não é a preocupação do Papa. Ele lidera, outros gerem! 

Por exemplo, com a trinómio ‘Vergonha, Vergonha, Vergonha’, o Papa enumerou o princípio de tolerância 0, acrescentando mais tarde, na conferência de imprensa pós JMJ, que é preciso atenção à especulação dos números. Com o ‘Todos, Todos, Todos’, enumerou o princípio da integração, para dizer, no Bairro da Serafina, que é preciso ver com óculos aquilo que ficou dito. Por fim, com a ‘Igreja sinodal, Sínodo, Sinodalidade’ enumerou o princípio da participação, para adiantar na Praça de S. Pedro, que a Igreja não é um parlamento. 

É preciso ouvir a voz do comando e compreender o que ela quer dizer! 

Sucede o mesmo com o grande discurso de Marselha, na conclusão do III Rencontres Mediterranées, no passado dia 23 de setembro, em que enuncia os princípios de acolhimento e de integração dos migrantes e refugiados. Na ocasião, disse que Marselha é a capital da integração dos povos, e que o Mediterrâneo, como o Mar da Galileia, é a Nova Galileia dos Gentios, um mar de mares e um mosaico multiétnico e multicultural. 

Do discurso o Papa Francisco relevo os três seguintes pontos:

  1. “É preciso recomeçar daqui: do grito muitas vezes silencioso dos últimos” 
  2. “Os migrantes devem ser acolhidos, protegidos ou acompanhados, promovidos e integrados”
  3. “Empenhemo-nos para que quantos fazem parte da sociedade possam tornar-se cidadãos de pleno direito”

O Papa determina três princípios justos, da solicitude universal, da integração, da cidadania. E. Macron disse no dia seguinte, em entrevista, que “o Papa Francisco tem razão. Nós temos de reconhecer que o Papa tem razão. Ele é o Papa e deve enunciar princípios”. 

As reações foram mais que muitas, com a maioria a perguntar pelo direito do país em proteger a fronteira, a segurança e a economia. Li também que “quem chega não tem qualquer direito”! 

Na continuidade do pensamento do Papa João Paulo II, o Papa Bento XVI, na Mensagem para do Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, de 2013, declarou o mesmo de Francisco:

  1. “A viagem migratória muitas vezes inicia-se com o medo, sobretudo quando perseguições e violências obrigam a fugir, com o trauma de abandonar os familiares e os bens”
  2. “A Igreja e as diversas realidades que nela se inspiram são chamadas a evitar o risco do mero assistencialismo, procurando favorecer a autêntica integração numa sociedade”
  3. “Os migrantes e refugiados podem experimentar também relações novas e hospitaleiras que os encorajem a contribuir para o bem-estar dos países com suas competências profissionais, o seu património sociocultural e também com o seu testemunho de fé
  4. “É verdade que cada Estado tem o direito de regular os fluxos migratórios e implementar políticas ditadas pelas exigências gerais do bem comum, mas assegurando sempre o respeito pela dignidade de cada pessoa”

O Papa Bento XVI acrescenta a necessidade de regulamentar os fluxos migratórios que não se reduza ao encerramento das fronteiras e ao agravamento das sanções, e declarou também existir a necessidade de intervenções orgânicas e multilaterais nos países de origem. Sobre este ponto da regulação, Francisco parece omisso, silencioso. 

Com certeza sabe, mais do que nós, que estão, atualmente, 2 milhões de deslocados subsaharianos na Líbia, Tunisia, Argélia, Mauritânia, como estão hoje 3 a 4 milhões de sudaneses no Egipto. O Papa já foi a Marrocos, ao Egipto, à Turquia, à Grécia, a Chipre, por isso tem de saber. Com certeza sabe que a França, em 2022, recebeu 320,330 novas entradas de emigrantes e que, em 2021, 273,360 novas entradas (dados do Instituto Nacional de Estatística Francês). O Papa elevou Msr. Aveline como cardeal de Marselha, e, por isso, há-de saber.

O Papa sabe e, no discurso de Marselha, afirma: “Esta situação não é uma novidade dos últimos anos, nem este Papa vindo da outra parte do mundo é o primeiro a senti-la com urgência e preocupação. A Igreja fala disto com tons vivos há mais de cinquenta anos.” E acrescenta: “Tinha terminado há pouco o Concílio Vaticano II, quando São Paulo VI escreveu, na Encíclica Populorum progressio: «Os povos da fome dirigem-se, hoje, de modo dramático aos povos da opulência.» (n. 3).” 

O Papa Francisco enumera o princípio da integração, os políticos fazem as políticas de integração. Francisco dá o exemplo da integração académica: “Dos 35 mil alunos que frequentam cursos, aproximadamente 5 mil são estrangeiros. Donde começar a tecer as relações entre as culturas, senão das universidades?” O Papa enumera princípio da integração académica,  E. Macron, Sánchez e Costa têm de andar para a frente. 

Para os franceses, e para os europeus, o maior medo é o da invasão e o da perda de segurança. O Papa Francisco mostra a alternativa da integração académica e laboral, e da plena cidadania. Para os cristãos, em geral, e não apenas, para os católicos, há o medo do crescimento islâmico, da conversão ao islamismo e da substituição religiosa. Vou tentar falar disso noutra oportunidade.