sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

UM LIVRO PARA A QUARESMA DE 2024: A Arte de Curar, de Fabio Rosini

O padre Fabio Rosini é um padre italiano, da diocese de Roma, cujos livros vão sendo traduzidos para português. Depois da A Arte de Recomeçar, de 2021, sobre o discernimento, a partir dos seis dias da criação, surgiu A Arte de Curar, de 2023, 342 p., sobre a cura do amor, a partir do relato da hemorroíssa e da ressurreição da filha de Jairo. Este livro pela sua profunda espiritualidade faz-me lembrar outros quase-clássicos como O Curador Ferido ou O Filho Pródigo, do Henri Nouwen, ou O Elogio da Sede, do Cardeal Tolentino Mendonça. 

Fabio Rosini aborda o medo enquanto sistema que impede, distorce ou diminui o amor. O medo - o medo de não ter importância nenhuma, de não ser reconhecido, de ser rejeitado, de desiludir, de sofrer, de cair na frustração, de perder o controlo, etc… - é a causa de uma série de patologias relacionais. O medo é ‘o golpe que está por detrás da vergonha, da falta de liberdade, do encerramento, das violências, do espírito possessivo, das dependências, dos apetites desordenados, das timidezes, dos autodesprezos, da frieza dos corações, das torturas ardilosas, das agressividades, das inseguranças e das dificuldades afectivas de qualquer tipo’ (p. 73). 

Esta descrição das nossas atitudes é um conjunto de ‘sintomas’ de ‘patologias relacionais’ que não posso negar, nem banalizar, nem sequer contrariar. Fabio Rosini pede que cada um dos nossos sintomas seja enfrentado e questionado com ternura por nós mesmos e ao mesmo tempo com verdade: porque me comporto assim? Com que medo estou em contacto? Só está clareza nos dará lucidez para nos magoarmos menos. ‘Então, não se trata de dar cabo do medo à força, ou, pior ainda, de negá-lo. Que devo fazer, então?’ (p. 83). 

Para o autor, os sintomas revelam uma patologia relacional causada pelo medo, e o próprio medo tem uma origem nas nossas vivências pessoais que ‘autossabotaram’ o nosso sistema operativo. Muitas das circunstâncias da nossa vida criaram dentro de nós uma falsidade, uma mentira, acerca de nós próprios, que foi sendo interiorizada, assumida, a maior parte das vezes de forma inconsciente, e que nos roubou a nossa própria identidade. Rosini é peremptório no que respeita à auto-aceitação da nossa auto-diminuição como pessoas: ‘o espaço destas mentiras é o pensamento triste. Estes pensamentos autodestrutivos ou autoexaltantes têm o contexto mental da melancolia autocomiserações, daquela tristeza adocicada a que se referiu o papa Francisco’ (p. 95). 

Assim, ‘de um modo geral, a tonalidade desse pensamento tem que ver com a má metabolização de um acontecimento passado, lido em sentido triste, doloroso, sem qualquer aspecto construtivo’ (p. 97). Para o autor, um conjunto de vivências introduziram o autodesprezo e a vergonha nós nossos corações. ‘Recapitulemos o percurso feito: temos atitudes erradas que são as nossas patologias afectivas, produzidas pelos nossos medos, e estes são gerados por convicções erradas, que os tornam devastadores. Tudo isto produz dor e então tentamos salvar-nos por estratégias que pioram a situação’ (p. 112). Habitualmente, diz o autor, como a hemorroíssa do evangelho que procurará muitos médicos, nós também procuramos muitos terapeutas para os nossos problemas. 

   (Elvis Spadoni, Emorroissa, 2017)



quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

350 anos do Sagrado Coração

1. As aparições do Sagrado Coração de Jesus 

Neste ano de 2024 celebramos 350 anos das aparições do Sagrado Coração (sobretudo quatro comunicações) a Santa Margarida Maria de Alacoque (1638-1690), ocorridas no Mosteiro da Visitação, em Paray-le-Moniale, entre 27 de dezembro de 1673 e 21 de Junho de 1675.

A primeira aparição ocorreu no dia de S. João, o apóstolo que viu o coração de Jesus a ser trespassado e a jorrar sangue e água. Nesta primeira aparição, o Senhor vai dizer-lhe na capela do mosteiro que ‘foste tu que eu escolhi, por causa da tua fraqueza e da tua ignorância, assim ver-se-á bem que tudo vem de mim’. Nesse mesmo instante, o Senhor tomou o seu Coração e colocou-o no coração de Margarida Maria que sente a união, enquanto ouve ‘doravante dou-te o nome de discípula do meu Sagrado Coração’. 

A segunda aparição em 1974 acontece numa comunicação do Senhor a Margarida Maria durante a adoração do Santíssimo Sacramento. Jesus pede à religiosa para comungar de modo mais frequente, e para comungar na primeira sexta feira de cada mês; depois pede para fazer uma Hora santa em cada quinta feira das 23.00 às 24.00 horas, ‘para acompanhar-Me na humilde oração que fiz então a meu Pai no meio de todas as minhas angústias’. A superiora não lhe permite o cumprimento das petições da parte do Senhor, concedendo-lhe permissão após a cura milagrosa de uma febre grave.

Numa terceira aparição, o Senhor pede a Margarida Maria para dizer à comunidade que o Senhor se queixa da falta de devoção de algumas religiosas. Santa Margarida teve muita dificuldade em fazer este anúncio, e fá-lo no capítulo de comunidade, sentindo imediatamente a indignação, a revolta e a arrogância, das irmãs. Aquela era a maior prova da sua vida. Nesta ocasião, o padre jesuíta Claude de la Colombière aparece na comunidade das visitandinas para ser o confessor das religiosas. O Padre de la Colombière confirma as aparições do Senhor e as graças que Margarida Maria tinha recebido.

A última aparição, a 13 de junho de 1975, acontece na festa do Corpo de Deus. O Senhor aparece e Margarida Maria vê o Senhor que lhe mostra-lhe o seu Coração dizendo ‘Vê o meu Coração que tanto amou os homens, que nada poupou até consumir-se e esgotar-se de amor. E em troca não recebe da maioria outra coisa que ingratidões, por suas irreverências, sacrilégios e desacatos neste sacramento de amor. (…) Por isto te peço que a primeira sexta feira, depois da oitava do Corpus, se célebre uma festa particular para honrar o meu Coração. (…) Prometo-te que o meu Coração derramará uma abundância de bênçãos do seu divino amor’. 

A primeira festa do Sagrado Coração será celebrada uma semana depois, a 21 de junho de 1675, por Margarida Maria e pelo padre de la Colombière que se consagraram pessoalmente ao Sagrado Coração. Santa Margarida Maria continua a sua vida de oração, a sua vida de reparação e as suas grandes penitências, tendo sido chama para Mestra de noviças. A festa será celebrada em todo o mosteiro em 1986. Santa Margarida Maria pinta o primeiro quadro do Sagrado Coração em 1985. Em 1988, começará a ser construída uma Capela em honra do Sagrado Coração. 

Uma nova superiora é eleita em 1690 e duvida das graças recebidas por Margarida Maria, e é tratada com muito desprezo e muitas humilhações. Santa Margarida Maria continua a sua vida de oração, a sua vida de reparação e as suas grandes penitências. Margarida Maria morre em 17 de outubro de 1690.

2. Entrar nos sentimentos de Jesus 

3. Receber a  graça de repouso, de consolação, de poder do Espírito e de misericórdia. 

A união ao Sagrado Coração dá a graça de repouso. O Senhor Jesus disse Vinde a mim todos os que andais cansados e oprimidos que Eu vós aliviarei. Vinde a mim que sou manso e humilde de coração. 




DIOCESE DE SANTARÉM. A caminho dos 50 anos

II. Muito para além de Adap's, precisamos de 'evangelizadores' com 'carta de missão'. Muito para além de 'conselhos pastorais' precisamos de verdadeiras 'equipas de animação missionária'

Um dos maiores desafios de uma Diocese - e de uma Paróquia - será sempre o desafio da evangelização, ou o de tornar-se uma Diocese e uma Paróquia missionárias. Sucede, porém, que a missão da Igreja e a evangelização têm estado muito dependentes da liturgia - e não da palavra - ou seja, têm estado muito dependentes da garantia da missa, dos sacramentos e dos atos de piedade, em todas as localidades. Uma missão evangelizadora que se autolimite nesta dimensão acabará por concentrar-se numa única pessoa - no ministro ordenado - que não conseguirá chegar a todo o lado. É o que tem acontecido num 'paradigma de manutenção de horários de missa'.

Procurei dizer, no artigo anterior, que a valorização do Domingo e o empenho de todos na celebração festiva da Eucaristia não são apenas importantes mas prioritários. Mas há mais missão que nasce de uma missa e também há mais missão que converge para uma missa. Numa Diocese - e nalgumas Paróquias mais ou menos rurais - como são boa parte das nossas - há aldeias, lugares e casais, que podem convergir para a mesma missa sem que isso signifique o abandono das suas igrejas, capelas ou oratórios; da mesma forma, da mesma missa pode advir uma maior missão para esses lugares. Precisaremos, por isso, de evangelizadores, de missionários, nos próprios lugares, ou então enviados para esses lugares. 

O ministério de catequista recentemente reinstaurado pelo papa Francisco pode muito bem ajudar a garantir e a enviar missionários por todo o território, que não o mantenham apenas, mas o 'missionem', o encontrem, o convidem. No que respeita este ponto, noto que em todo o território francês, em 2012, cerca de 9.500 leigos eram portadores de uma "carta de missão" (lettre de mission) escrita pelo bispo diocesano que nomeava certos cristãos para determinadas missões eclesiais. Pode, na verdade, haver mais missão de visita e de convite, num pequeno lugar, feito por um evangelizador que não precisa necessariamente de ser um animador de 'Assembleia dominical na ausência de presbítero'. Há mais missão para além das celebrações da palavra.

É também precisa uma equipa de missionários numa paróquia. Um padre não pode visitar sozinho todas as aldeias e todos os lugares, da mesma forma que não pode preparar sozinho a celebração do Domingo sem uma verdadeira equipa missionária. Às vezes os nossos conselhos pastorais são um belo grupo de preparação de uma festa, de uma procissão ou de uma angariação de fundos, mas não significa que seja um belo grupo missionário. Hoje precisamos muito de uma equipa missionaria que não seja apenas o coletivo das representações dos grupos e dos movimentos paroquiais, mas que seja um grupo que partilhe a mesma urgência missionária, a mesma visão missionária e a mesma convergência dos meios disponíveis.

James Mallon, a este propósito, fala dos quatro pilares de constituição de uma equipa missionária. É preciso Unidade de visão, Equilíbrio de forças, Vulnerabilidade e confiança e Tensão saudável. Quer dizer, é necessário um grupo que tenha o mesmo alinhamento de visão, cujas pessoas estejam no seu carisma próprio, numa autêntica relação de fé, caridade e perdão, e na transparência da sua intenção. No fundo precisamos de equipas compostas por pessoas credíveis, disponíveis, contagiantes e dóceis ('ductíveis'), que compreendam que a Igreja serve para anunciar Cristo.       

I. Empregar 80% do tempo pastoral para encontrar 80% da comunidade dos irmãos. Da clássica regra 20/80 para a regra de ouro 80/80.

A Diocese de Santarém fará, em Julho de 2025, cinquenta anos da sua criação. A celebração do cinquentenário vai coincidir com o tradicional jubileu da Encarnação. Parece-me uma ocasião propícia para a ação de graças, a reflexão, a purificação e a projeção. Seria importante marcarmos a data com uma revisão de vida, mais do que com eventos físicos, ainda que eles sejam necessários. 

Nesta ocasião, e também porque se aproxima uma nova nomeação pastoral, voltei a consultar James Mallon, Renovação Divina, Paulus, 2019. O livro foi publicado em 2014, e foi sendo aprofundado noutro, entretanto traduzido como J. Mallon, Desbloqueia a tua paróquia, Paulus, 2020. Há um outro sobre a renovação da diocese - Beyond the parish, de 2019 (Au-delà de la paroisse, de 2022) - que ainda não está traduzido em português. 

No primeiro livro, Renovação Divina, J. Mallon aponta 10 prioridades para a renovação de uma paróquia (p. 270-271). As primeiras quatro são:

1. Dar prioridade ao fim de semana 

2. Hospitalidade

3. Música edificante 

4. Homilias fabulosas 

(…)

As dez prioridades contrapõem-se aos sete valores reais por que se pautam as nossas actuais paróquias: 

1. Preservação dos edifício 

2. Catequese centrada nas crianças 

3. Conveniência de horários 

4. Expectativas mínimas 

(…)

Sucede que as quatro primeiras prioridades estão centradas à volta do fim de semana (p. 95-101). O fim de semana - aponta o conhecido autor - é o único momento em que vemos 80% das pessoas da comunidade e, apesar disso, investimos apenas 20% do tempo pastoral a planear e a preparar esse encontro. 

Na verdade, é fácil gastar 80% da semana em assuntos que não têm que ver com o fim de semana, tais como cartório, administração, reuniões, grupos, exéquias, etc. Planeamos e preparamos a semana como se nela acontecessem as coisas verdadeiramente importantes, e descuramos o fim de semana como se ele fosse ‘um acréscimo, um leve interromper do trabalho real, que decorre de segunda a sexta’ (p. 96). 

Não há dúvida de que a prioridade de qualquer paróquia e de qualquer sacerdote deveria ser o fim de semana, a celebração da eucaristia e o encontro da grande comunidade. É preciso ultrapassar a ‘clássica regra dos 80/20’ como diz Mallon, para uma outra regra de ouro 80/80: 80% do tempo semanal para planear e preparar o encontro com 80% da minha comunidade, em vez dos habituais 20% empregados para encontrar 80% da nossa comunidade. 

Na verdade, é fácil verificar como descuramos o domingo. Basta ver as celebrações seguidas umas das outras, sem tempo de qualidade para desenvolver relações e realizar convites, para encontrar ou juntar as pessoas; sem um ministério de música que motive e faça sentido, sem acólitos, sem famílias, etc. Assim, de repente, não podemos celebrar mais de duas eucaristias no domingo de manhã, às 10.30 e às 12.00 (uma outra às 16.00). Deveríamos arrumar assim o domingo para estarmos uns com os outros com comunhão e alegria. 


segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

«A catequese como etapa privilegiada do processo de evangelização» (56)

A imagem que segue, de Isabelle Morelle, é extraordinária, e ilustra bem o caminho que a catequese está a fazer neste século XXI. O processo catequético é como a subida a uma grande montanha feita por um grupo de rapazes e de raparigas, acompanhados pelo seu guia. Ele e os quinze exploradores delinearam o percurso - o itinerário - e as fases de escalada do monte. À medida que forem subindo, cada qual vai manifestar um interesse diferente. Um que tenha apetência por animais, vai estar atento aos bichos; outro que tenha gosto de árvores, vai classificá-las por espécie; e, sucessivamente, os quinze mostrarão interesses distintos, e expressões diferentes do que pensam e sentem. 

Se o grupo tiver  um potencial pintor, fotógrafo, alpinista, agricultor, produtor, operador de turismo, biólogo, geólogo ou veterinário, poderá antever-se a diversidade de experiências e de opiniões. De fcato, cada um vai subir com os seus próprios interesses, parando em lugares que não lembrariam a ninguém, distinguindo coisas que vão escapar aos outros, dando-lhes sentido segundo as próprias motivações. Estamos a falar de um grupo que vai fazer um caminho, que, no fundo, acabarão por ser quinze caminhos diferentes, ainda que sincronizados e integrados uns nos outros. Ao guia - ao acompanhador - competirá o labor de acompanhá-los a todos, promovendo as suas motivações e fazendo integrar elementos que façam sentido!

O caminho da catequese no século XXI tem sido o de colocar 'a catequese dentro do processo de evangelização' (419). Ou seja, se toda a Igreja deseja ser missionária, e renovar-se de forma permanente, então a catequese contribui nesse processo como catequese missionária. Se a Igreja é toda ela um grande processo de evangelização, então a catequese contribui para o processo de evangelização. Para ilustrar essa mudança de paradigma eclesial e catequético, procurei no novo Diretório para a Catequese, de 2020, a palavra 'processo', num total de 129 localizações, e a palavra 'acompanhar', num total de 83 localizações; descobri - só no fim! - que existe a entrada 'Processo' e "Acompanhamento" no Léxico do Diretório (estas entradas são muito úteis para compreendermos os temas importantes no novo Diretório). 

Seguem-se as ideias que as contextualizam.

1. O grande processo de evangelização da Igreja; a catequese no grande processo de evangelização da Igreja











a) Processo de evangelização: toda a Igreja está em processo de evangelização. Toda a Igreja está em 'processo de renovação' (1), em 'processo de nova evangelização' (6), que é um 'processo eclesial sustentado e inspirado pelo Espírito' (31, 39), um processo que abrange dimensões e não apenas fases sucessivas (32). A Igreja precisa 'manter-se num processo de conversão espiritual e missionária' (244), 'é preciso dar início a um processo de conversão missionária que não se limita a manter o que já existe, mas que avança em direção evangelizadora' (300);

b) Processo de fazer discípulos missionários: a Igreja existe como Igreja missionária e existe para formar discípulos missionários. A Igreja pretende criar nas pessoas um 'processo permanente de conversão de vida' (35), suscitar 'processos espirituais' (43),  iniciar 'um processo de conversão a Jesus ajudado pela catequese' (78); deve procurar realizar um 'processo educativo de amadurecimento cristão integral' (80),  dar origem a 'um processo interior de reflexão' (198), a 'um processo de interiorização da fé' (220, 396);

c) Processo da catequese: a catequese insere-se no processo global de evangelização. Numa Igreja missionária, a catequese tem por finalidade ser 'uma etapa privilegiada de evangelização' das pessoas (56). Com efeito, 'no centro de cada processo de catequese está o encontro com Cristo vivo' (75), sendo, por isso, preciso 'fazer do processo de iniciação cristã uma autêntica introdução experiencial à globalidade da vida de fé' (242);

d) Processo pessoal: o processo catequético respeita o itinerário pessoal. Numa Igreja de nova evangelização e permanente formação, a catequese - como o catecumenado - pretende contribuir com  um 'processo dinâmico' e progressivo, correspondente com a biografia de cada pessoa (63), 'num processo que permite a maturidade da fé através do respeito pelo itinerário de cada crente' (166). De facto, 'a fé não é um processo linear e participa no desenvolvimento de cada homem', real,  concreto, histórico (224); a fé participa no 'processo lento e laborioso de personalização do indivíduo' (146), mesmo no 'processo contínuo de restruturação' do indivíduo (257) - 'o acto de fé é um processo interior intimamente ligado à sua personalidade' (257). Por isso, 'é importante que a catequese tome a peito o processo de receção pessoal da fé' (396);

e) O carácter comunitário do processo catequético. Numa Igreja fraterna, toda a comunidade se envolve na catequese, de modo que seja um 'processo que se realiza numa comunidade concreta' (64). Neste sentido, 'o catequista leva a cabo este processo educativo não individualmente, mas juntamente com a comunidade e em seu nome (150); a catequese envolve comunidade e família 'dando lugar a processos de evangelização recíproca entre os diversos sujeitos eclesiais envolvidos' (242);

f) Distinção entre processo, conteúdos e métodos. A pedagogia da fé requer um 'processo educativo' enriquecido com as ciências humanas, sobretudo a pedagogia e a didática (180), a experiência humana é constitutiva do processo catequético, do seu conteúdo e do seu método (197), 'outros elementos do processo catequético são a relação, o diálogo, a reflexão, o silêncio e o acompanhamento (203). 

g) O processo de evangelização interiorizado pelo próprio catequista. Este processo é 'um processo que toca o íntimo do catequista' (131), que faz com que todo o processo formativo seja uma experiência espiritual lida em perspetiva testemunhal e missionária (135).

2. 'O catequista é um perito na arte do acompanhamento' (113). Também a palavra acompanhar é muito utilizada no Diretório para a Catequese de 2020. Conseguimos localizar 83 palavras relacionadas com a ação de acompanhamento que surgem nos contextos que seguem.

a) A Igreja acompanhadora. A comunidade é o primeiro sujeito do acompanhamento e o serviço do catequista 'é vivido dentro de uma comunidade que é o sujeito primeiro do acompanhamento na fé' (111). O acompanhamento da Igreja é sinal do 'zelo da Igreja que acompanha os seus filhos ao longo do arco da sua existência' (232);

b) A Igreja acompanha todas as situações. O acompanhamento é sinal da abertura da Igreja; 'com zelo, respeito e solicitude pastoral, a Igreja acompanha aqueles filhos que estão marcados por um amor ferido' (234); as comunidades cristãs acompanham com realismo todas as realidades com luzes e sombras 'para as acompanhar de modo adequado e discernir a complexidade das situações' (234), 'acompanhar na fé e introduzir na vida da Igreja as situações irregulares implica tomar muito a sério cada pessoa' (35);

c) A catequese acompanha o amadurecimento da fé. 'O Diretório reitera a importância de a catequese acompanhar o amadurecimento de uma mentalidade de fé numa dinâmica de transformação' (3); 'a catequese forma para a missão acompanhando os cristãos no amadurecimento de fé' (50, 53, 55, 116); 

d) A catequese acompanha com paciência. O acompanhamento é feito de forma gradual e progressiva, 'acompanhando com paciência e respeitando os tempos reais de amadurecimento' (64), de modo 'a acompanhar no discernimento da vocação específica' (85), 'o acompanhamento de uma pessoa no crescimento e conversão é marcado necessariamente pela progressividade' (179, 420);

e) O catequista como acompanhador. O catequista é testemunha da fé, mestre e mistagogo, 'acompanhador e educador daqueles que lhe são confiados pela Igreja; o catequista é um perito na arte do acompanhamento' (113). Na verdade, 'são verdadeiros discípulos missionários enquanto sujeitos ativos da evangelização e habilitados pela Igreja a acompanhar e a educar na fé' (132); 'a figura do catequista se concretiza como alguém que acompanha e como um educador capaz de os apoiar nos processos de crescimento pessoal' (263), 'aquele que acompanha mantém conscientemente em relação a eles uma função educativa' (263), 'quem acompanha é capaz de colocar-se de parte, favorecendo nos sujeitos a assunção da responsabilidade' (263), 'o desafio pastoral é de acompanhar o jovem na busca da sua autonomia' (370), por isso, são necessárias figuras com autoridade (370);

f) A formação para o acompanhamento. É necessária a formação permanente para ajudar no acompanhamento dos irmãos (132); 'a Igreja sente o dever de formar os seus catequistas para a arte do acompanhamento pessoal, propondo-lhes a experiência de serem acompanhados, habilitando-os a acompanhar os irmãos. Este estilo requer uma disponibilidade humilde' (135); 'requer um certo acompanhamento no tempo, porque intervém no núcleo que fundamenta o agir da pessoa' (139.

3. A formação permanente. 

Note-se que a palavra 'formação' aparece sobretudo num 'formação permanente' (dos cristãos, dos padres, dos catequistas), e, como tal, é vista no contexto de 'formação de toda a vida cristã' (Intro); trata-se sobretudo de uma formação para o ser antes de ser uma formação para o estar (136). Assim, por exemplo, 'o catecumenado é uma verdadeira formação de toda a vida cristã' (63); 'a formação é um processo permanente' (131); a formação ajuda a reconsiderar e a repensar a ação, alimenta a espiritualidade, sustenta a consciência missionária (135).

Note-se ainda que a palavra 'formação' também aparece num contexto de formação dos grupos e dos catequizandos. A formação dos jovens é uma formação que abrange todas as dimensões da vida que permita 'a formação da identidade pessoal' (259), 'a formação e o amadurecimento na vida do Espírito' (260), 'a formação de consciências cristãs maduras' (261), 'a formação das características típicas do cristão adulto' (261), 'formação global' e 'formação integral' (314). 

Pormenor do deambulatório da catedral de Chartres



domingo, 21 de janeiro de 2024

Cristo, Cristo, e outra vez Cristo!

O Senhor no Evangelho volta a passar para chamar os que quer. É como a cruz processional que avança, do fundo da igreja, para chegar perto das pessoas da assembleia. As igrejas também são uma espécie de beira mar, por onde Cristo se passeia, e começa, do fundo, a chamar os homens para a pesca...

Visivelmente, o Senhor vem ter connosco na comunhão da eucaristia, mas só vem para se passear na alma, e voltar a chamá-la. O Senhor chama dentro da alma - 'eihhhhhhhh' -, como parece que o mar chama dentro dos búzios; penso verdadeiramente nunca ter feito a experiência dos dois...  

Ela - esta alma! - é outra beira mar, de fina areia, por onde Cristo avança, minúsculo e quase impercetível. “Há tantos anos que Cristo aqui habita, e que está na mesma praia que tu, que é espantoso como não formas a imagem do teu mestre e amigo...”

Há muitos anos - desde o seminário - que penso na habitação de Cristo na alma. Sempre tive a ideia de que as coisas da alma, como as coisas do mundo, se resumem na mesma pessoa - Cristo! Tudo é de Cristo, a palavra, o batismo, a eucaristia, a alegria e a tristeza, a vida e a morte, tudo é para Cristo... 

A praia, o barco, as redes, o peixe, o oceano, até o sol e o vento Lhe pertencem! Nós pescamos e tentamos só porque Ele continua a querer e a gritar lá do fundo - 'heihhhhhhh'; «Senhor,  mesmo que o mar esteja bravo, e não seja época, e não haja peixe?!» 

- «Sim!» 

- «Oh Senhor, mas o Simão diz que o barco é dele! E o André, agarrou as redes com os dentes!»

- «Diz-lhes que são tontos! E tu também és!»

- «Somos todos tontos, estão a ouvir?!»

O Senhor avança quando nos encontra pequenos. Os irmãos da comunidade Emanuel escutaram muitas vezes o Pierre Goursat a murmurar na oração 'petit, petit, petit...!' ou 'vermezito...!'. O Senhor avança quando nos encontra sem nada. Cristo, Cristo, e outra vez Cristo, avança como uma cruz processional, ou como uma hóstia da eucaristia, para morar em nós, mesmo que nos encontre pequenos, pelas perdas, pelos desgostos e pelas doenças, outra vez Cristo! 

sábado, 20 de janeiro de 2024

“Obrigado por ter fundado o Emanuel’, JPII, 1986

Pierre Goursat (1914-1991) é um nome que ninguém conhece. É o fundador da comunidade Emanuel. Os fundadores dos movimentos eclesiais do século XX são normalmente conhecidos. Kiko Arguello é o fundador do Caminho Neo catecumenal, Chiara Lubich do Movimento dos Focolares, Monsenhor Giussani da Comunhão e Libertação, Monsenhor Escrivá do Opus Dei, etc. A estes ‘pais’ dos grandes movimentos pós conciliares juntaram-se outros nomes que fundaram novas congregações ou novas comunidades de vida. 

Pierre Goursat foi um desses criadores e um dos primeiros tradutores do Renovamento Carismático em França, com a fundação da Comunidade do Emanuel. 

Pierre era um típico parisiense - urbano, bem relacionado, boémio, culto. Estudou na École do Louvre e seguia a Escola prática de altos estudos para poder ser Conservador no Museu de antiguidades nacionais em Saint-germain-en-Laye. Mas a vida tinha outros planos para ele. 

A morte do irmão mais novo, Bernard, de apenas dez anos, em 1926, foi arrasadora para Pierre; mais tarde, a tuberculose levá-lo-ia ao sanatório por cinco meses, e ao desespero de vida. 

No ano de 1933, um ‘acontecimento sobrenatural’ seria decisivo na sua vida: ‘isso foi de tal modo simples que não o posso contar. Tudo de um golpe, senti a presença do meu irmão com uma intensidade extraordinária. Foi como se me dissesse: ‘tu pensas demasiado em mim. Isso é porque estás preso pelo orgulho’. Foi como se ele estivesse presente. Eu dei por mim de joelhos aos pés da minha cama e, quando me levantei, estava completamente transformado. Eu não era mais o mesmo. Era como se tivesse recebido uma efusão do Espírito’(p. 20). Pierre tinha 19 anos. 

A sua mãe e a sua irmã que trabalhavam na hospedaria da família e na cozinha desse pequeno hotel achavam que Pierre se tinha tornado ‘muito cristão’. Na verdade, Pierre Goursat transformava-se num apóstolo leigo, sobretudo dos jovens. 

Em junho de 1944, um outro ‘acontecimento sobrenatural’ surpreenderia Pierre. Em plena Paris ocupada, e nervosa com o desembarque americanos, Pierre é sinalizado por soldados alemães e, num incidente de rua, foi por eles perseguido. Escondido, escutou interiormente ‘alguém que me dizia ‘não te inquietes. Tu estás salvo. Era muito claro. Eu não podia duvidar. Eu não podia duvidar que era Maria que falava e que ela me tinha salvo’ (p. 27). 

Nesse período 1933-44, Pierre cria um grupo de jovens para a leitura e partilha do Evangelho, entra na Legião de Maria, participa na adoração permanente de Montmartre, é dirigido pelo cardeal Suhard, arcebispo de Paris. Pierre sente que a sua vocação é ser ‘um adorador da Eucaristia no meio do mundo’.

Pessoalmente, Pierre ocupa-se da edição da Revue Internationale du cinema, monta uma livraria, a Société de diffusion du livre, e uma editora, o Centre du livre français. A edição da revista internacional de cinema, durante dez anos, dá-lhe notoriedade no meio cinematográfico. As suas críticas são consideradas e reproduzidas em todos os jornais e televisões franceses; torna-se responsável da Centrale catholique du cinema; organiza festivais, galas, encontros: ‘nesse momento eu seguia todas as galas, como Cannes ou Veneza. Estava um pouco por toda a Europa. I@ também ao Canadá … fui convidado pelos russos para ir a Moscovo’ (p. 34). Retirar-se-ia em 1970. 

Pierre Goursat encontra, por indicação do padre Caffarel, Martina Laffitte, médica cirurgiã, e responsável por um grupo de oração, em 1971. Ambos criam uma École d’oraison e, juntos, convidam e ajudam os jovens a descobrir a oração. 

Em 12 e 13 de fevereiro de 1972, o padre Caffarel convida-os para um week-end de oração, em Troussures, e convida também Xavier e Brigitte Le Pichon, respetivamente geofísico e pianista. O casal tinha feito a experiência de efusão do Espírito Santo nos Estados Unidos. O seu testemunho, a explicação do que fazia o Espírito Santo por meio do Renovamento, e o próprio exercício da oração, foram ‘um mundo novo que começava’ (p. 46). 

Esta experiência de oração continua num pequeno grupo de Martine e de Pierre, e torna Pierre Goursat num companheiro mais próximo, mais simples e mais fraterno. Ambos, Martine e Pierre, decidem em maio de 1972, propor ao grupo a experiência de efusão do Espírito. Dizia Pierre que ‘uma vez que as coisas se passam assim nos Estados Unidos, será que não podemos pedir ao Espírito Santo que isso se passe entre nós, em França’ (p. 49). 

E assim, foram-se juntando cada mais jovens, em cada semana, em casa de Martine; depois formaram-se dois grupos, o de S. Sulpício e o da Anunciação, um que funcionava no Centre catholique, e depois na cripta da Igreja de S. Sulpicio, e outro no ginásio da Escola nacional. Em Setembro de 1973, abriu-se o terceiro grupo de oração, na capela de S. Bernardo, em Montparnase, que transitou, depois, para Notre Dame des Champs. 

Eram grupos de oração ligados à forma do Renovamento Carismático, mas sem estarem realmente  unidos a ele. De modo que surgiu o nome do Emanuel com o objectivo muito específico da adoração, da compaixão e da evangelização.

Pierre Goursat tornou-se o responsável dos grupos. Falava pouco, sondava o coração de cada um e discernia os carismas. Pierre dizia que era o único que não tinha carisma especial: ‘o Senhor deu-me o carisma de diretor, de pastor. Eu era muito pobre. Não tinha carisma nenhum a não ser. O Senhor ajudou-me muito mas eu sentia que não tinha carisma nenhum. Então, o Senhor disse-me: discerne as pessoas que se ocuparão de tudo’ (p. 61). 

De facto, apareciam muitos carismas na nova comunidade - da pregação, da profecia, das línguas, da música. Pierre não se sentia particularmente agraciado; era mesmo um péssimo organizador e pregador. ‘C’est bien claire. Le Seigneur a pris la personne la plus pauvre possible pour manifestar sa action’ (p. 126). Franzino, sempre doente, muito magro, reservado, parecia de tal forma um pobre, que levou alguém a exaltar a comunidade por acolher o pobre que estava ali a um canto. ‘Ah? Mais c’est Pierre. C’est notre fondateur’ ( p. 127).

Na jornada de Pentecostes, de 1973, reunem-se em Paris cerca de quinhentas pessoas; em julho de 1974, em Vézelay, estavam seiscentas; no encontro internacional dos movimentos ligados ao Renovamento Carismático, no Pentecostes de 1975, em Roma, mil. Em Julho desse ano de 1975, o Emanuel volta a reunir-se, desta vez em Paray-le-Moniale, com 1200 pessoas.

Veio depois o encontro em Lurdes, em 1976, Lyon, em 1977. ‘Depois de Roma - a graça da Igreja, com Paray - a graça do Coração de Jesus, com Lurdes - a graça de Maria’ (p. 95). Pierre e Martine fariam uma visita por várias comunidades do Renovamento Carismático católico nós Estados Unidos, e a experiência de um retiro de preparação para a efusão do Espírito Santo, em 1976. 

A comunidade cresceu, dividiu-se em casas, ‘aquilo que os americanos chamavam de casas não residenciais: cada pessoa ou cada família habita nela, mas encontra os irmãos e as irmãs de casa num serão de encontro, de oração e de partilha, cada semana’ (p. 106). 

Esses irmãos começam a comprometer-se no serviço da Igreja por um ano, alguns casais dedicam-se por completo missão, outros consagram-se com votos privados, outros iniciam um processo de discernirão sacerdócio no convento da Anunciação em Paris e depôs no Seminário francês de Roma. 

Pierre diria a um dos padres acompanhador ‘ se tu lhes ensinares a manterem-se pequenos, a se deixarem maravilhar pelo Espírito Santo, com Maria, a viverem como irmãos e a saberem obedecer, não vai haver problemas com o resto’ (p. 170). A comunidade continua a reunir-se para o louvor e para a adoração, e começam a realizar-se fins de semana específicos de ensinamentos para a efusão do Espírito Santo, sobre a vida cristã, sobre a iniciação dos adultos, para os casais, para os jovens, para o mundo operário, para os profissionais de diferentes áreas, etc.

O último capítulo - chapitre IX, Esquisses pour un portrait - trata de alguns traços de personalidade do Servo de Deus Pierre Goursat. Pierre deixava-se conduzir pelo Espírito  Santo em total disponibilidade e escuta. Dizia ‘é suposto eu conduzir, mas estou atado a uma cadeira, um outro tem o volante, isto vai cada vez mais depressa, e eu sou obrigado a abaixar-me nas curvas’ (p. 234). 

Pierre tinha o sentido dos sinais dos tempos e uma grande perspicácia sobre a situação da Igreja; contra conservadorismos e máquinas administrativas, ‘ele acreditava que era preciso fazer girar as coisas, que era preciso avançar e fazer avançar o mundo… Mas era muito atento àquilo que o Espírito podia sugerir ou indicar através da Igreja’ (p. 244). 

Havia em Pierre Goursat uma humildade e uma pobreza desarmantes, porque não queria ser outra coisa que um canal da graça. ‘Isso ia tao longe que havia irmãos que não sabiam que ele era o fundador. Criticava-se o Emanuel por não ter fundador. Por ser uma comunidade sem ter fundador conhecido’ (p. 246). À sua humildade, Pierre Goursat juntava a pobreza - ‘ele vivia num despojamento inacreditável’. ‘Para ele, a palavra pobre tinha uma significação quotidiana muito precisa. Dela vem a sua facilidade em compreender os excluídos, os marginais’ (p. 248). 

Havia também humor e liberdade em Pierre Goursat. ‘O humor era igualmente factor de conversão na linha de são Filipe de Néry’ (p. 250). A sua liberdade interior em relação a tudo e a ele mesmo, não se levando muito a sério, era sinal da docilidade no Espírito. 

Havia pureza em Pierre, sinal da sua consagração pessoal. Zelo pelo casa de Deus. Amor ao coração de Jesus. Das muitas coisas que impressiona na transformação operada no Espírito é a sua infância espiritual - ‘Pierre riait de tout son coeur. Ele tornara-se interiormente - e mesmo exteriormente - mais enfant que nunca. Ele tinha entrado na união habitual com Deus - a união ‘definitiva’ - cujos sinais não enganam: uma grande sabedoria, um hábito de referir a Deus todas as coisas, um abandono à Divina Providencia, uma espécie de doçura divina, um espírito de compaixão fraternal, com a certeza e a paz’ (p. 257).

Em 1986, o papa João Paulo II, em visita à Paray-le-Monial, disse a Pierre Goursat ‘obrigado por ter fundado o Emmanuel’.

Pierre Goursat faleceu a 25 de março de 1991.


In Bernard Peyrous/Hervé-Marie Catta, Le feu et l’ esperance,  Editions du Emmanuel, 1995.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

A 'maternidade' e o 'mistério' da Igreja

«De Sião, porém, se dirá: "Um e outro, todos ali nasceram; e o próprio Altíssimo a estabeleceu". O Senhor apontará no registo dos povos: "Este nasceu ali". (Sl 87,5-6)

Em Paradoxo e Mistério da Igreja, de 1967, Henri de Lubac resume a Igreja na palavra mãe: 'l'Eglise, c'est ma mère' (p.14). A palavra mãe não quer dizer maternalismo mas sim geração do Cristo. Mãe é a 'Igreja viva' - ''l'Eglise vivante' - a Igreja toda, do céu e da terra, de todos os séculos e do presente, dos crentes e dos santos, da liturgia e da missão, que gera Cristo e gera Cristo em nós: 'elle enfante le Christ en nous' (p. 20).

Num outro texto, A Maternidade da Igreja, de 1971, De Lubac afirma que 'a maternidade da Igreja é tão real como a presença de Cristo' (p. 160) ou 'tão real como a paternidade Paulo'. Depois, mostra que a Igreja é mãe de todos os que nascem do Espírito, a partir de muitas citações dos Evangelhos - 'Jerusalém, Jerusalém, quantas vezes te quis reunir' (Mt 23,37) -, de S. Paulo (Gl, 4,19; 1Cor 4,14; 1Tes 2,10), de S. João (2 Jo 1,4), do Apocalipse (Ap 12).

A maternidade da Igreja não se reduz a uma expressão afetuosa, a uma analogia natural, ou uma espiritualidade, da mesma forma que não se reduz a uma perspetiva educadora e disciplinadora da Igreja. Também não respeita à Igreja hierárquica ou paternal que nos leva à reverência e obediência (p. 168). De Lubac diz que a maternidade da Igreja é real, porque, fecundada pelo Espírito Santo, gera todos os dias novos filhos. De facto, basta ver quantas vezes aparece o verbo 'nascer' no evangelho.

A Igreja é uma mãe, e 'nós não seríamos cristãos se não reconhecêssemos o seu carácter essencial' (p. 167). A maternidade da Igreja realiza-se na geração e na formação do Cristo, por meio da Palavra e dos Sacramentos, na alma das pessoas. Com efeito, 'a Igreja, nossa casa, na qual o batismo nos introduziu, guarda a consciência da nossa identidade pessoal. Ela fornece-nos o ambiente onde esta consciência se pode expandir. Ela mantém no meio de nós estas coisas tão ameaçadas: o respeito pla vida e pela morte, a fidelidade ao amor familiar, (...). Por ela, uma abertura vertiginosa, obscura mas infalível, nos eleva ao nosso Pai que está nos céus.  Nesta comunidade de vida nós, fomos postos num canal, (...) nele respiramos e existimos' (p. 215). 

É a geração como filhos de Deus. Trata-se, porém, de uma geração que nunca está acabada e que se renova de dia para dia. 'Jamais se pode dizer que Cristo tenha sido alcançado em algum de nós. Jamais, por conseguinte, a ação maternal da Igreja cessa a nosso respeito' (p. 168). Antes, pelo contrário, esta geração conclui-se na união de mãe e filho: 'na nossa vida natural, cada passo para a idade adulta é um afastamento da infância, que anuncia uma perda do paraíso, um passo para a velhice e para a decrepitude. Mas, ao contrário, na vida espiritual, todo o progresso é uma renovação' (p. 165). 

A este propósito, De Lubac, cita S. Agostinho: 'no casamento carnal, a mãe e a criança são distintos, na Igreja, a mãe e a criança são um' (p. 168). 

Depois, Henri de Lubac afirma que a Igreja é mãe na sua totalidade, enquanto é unidade orgânica. Na atuação desta unidade, o Verbo de Deus nasce e cresce no cristão (p. 169). Na realidade, é a Igreja toda que realiza o nascimento de Cristo na alma, por meio do batismo. 'É, por assim dizer, uma maternidade de todos, indivisivelmente, em relação a cada um, e de cada um, em relação a todos' (p. 171). De Lubac cita a este propósito H. Newman quando afirma 'nesta Igreja dos Padres eu reconheço a minha mãe espiritual. (...). A renúncia dos ascetas, a paciência dos mártires, a determinação dos seus bispos, o elo alegre do nosso caminho em frente...' (p. 172).

Por fim, De Lubac cita K. Rahner: 'muitos cristãos, diz-me ele, qualquer que seja a sua obediência religiosa, têm tendência a fazer do cristianismo uma ideologia, uma abstração. e as abstrações não têm necessidade de mãe. (...) A maternidade da Igreja não sentido para os nossos sistemas ideológicos, mas nós - para nos livrarmos da sua abstração, temos necessidade de voltar à uma mãe' (p. 219).   

Em Meditação sobre a Igreja, um compêndio de conferências pronunciaras entre 1946-1949, Henri de Lubac, seguindo a frase de P. Claudel - ‘louvada seja para sempre está grande Mãe, aos joelhos de quem tudo de facto aprendemos” - compõe o seu hino de gratidão à Mãe Igreja: ‘louvada seja a Igreja pelo mistério divino que ela nos comunica… Louvada seja ela pelo perdão que nos assegura… louvada seja ela pelos focos de vida religiosa que ela suscita… Louvada seja ela pelo universo interior que ela nos descobre… louvada seja ela pelo desejo e pela esperança que ela nos dispõe… louvada seja por tudo o que ela desmascar e e dissipa em nós de ilusões… Mãe casta…(p. 236-240). 

Em vista desta Mãe, assaltam-nos muitas tentações cuja expressões ‘clericalismo’, ‘mundanismo’, nos parecem familiares.

A primeira tentação é a ‘passagem dialéctica’ (p. 241) do querer servir a Igreja ao colocá-la ao seu serviço. Ê a tentação de manter eternamente o mesmo universo mental, social e cultural, num cristianismo clerical, defensivo e endurecido; a tentação de chamar de liberalismo ou modernismo tudo o que possa aparecer de novo. ‘Craignons une usurpation sacrilège’ (p. 245). As palavras são de De Lubac. ‘Mas nós sabemos que o milagre se dará de cada vez inédito, de cada vez imprevisto, nós sabemos que ele se renovará’ (p. 243). 

A segunda tentação é a tentação inversa da crítica (p. 245). A boa crítica é um discernimento, uma auto crítica, um esforço de realismo. A boa crítica provoca uma atividade redobrada, um espírito de invenção, uma realização de pesquisas e de experiências. Vêmo-la na palavra de muitos Santos. Mas essa palavra nada tem que ver com ‘la pruderie ou le calcul hypocrite’ (p. 248), ou com a ‘la plainte stérile, perte ou seulement diminuition de la confiança envers l’Église’. Algumas vezes esse mal torna-se ipidemia, neurastenia colectiva, ‘Tudo recebe uma interpretação pejorativa’ (p. 249). ‘Por este movimento farisaico, espécie de secessão interior, …, compromete-se por uma via que pode conduzir à renegação’. 

A terceira tentação é a da ilusão, ou da quimera. É a tentação de ‘mudar de método como faz uma qualquer empresa humana’, sem que a fonte real seja a caridade de Cristo (p. 253). ‘Querendo lutar contra o anquilosamento e a esclerose podemos estar a fazer algumas doenças infantis’. De Lubac pede que trilhe um caminho entre o aprisionamento mesquinho ou morbidez do passado e a suficiência moderna (p. 255). A palavra aparece-nos então conhecida: ‘vigiemos para não acolhermos em nós mesmos a mundaneidade - popular ou burguesa, vulgar ou refinada’ (p. 255). 

A tentação do sucesso, da eficácia, ou de se enganar no objectivo (p. 258). ‘A igreja deve, como Cristo, estar em agonia jusqu’au fin du monde’ (p. 256). A igreja não vive para si mesma - para o quantitativo, o massivo, para a autoridade social, a notoriedade, o prestígio - que nos desviam da realidade central, mas para anunciar o Reino dos céus e levar os homens ao Reino dos céus.

A tentação da sabedoria do mundo - ‘esta é a tentação mais grave’ (p. 260). ‘A Igreja existe aqui em baixo na forma de escravo’ (p. 260). A Igreja deve procurar a sabedoria de espírito e não sabedoria do mundo; não é uma assembleia de sábios mas de medíocres; não uma elite, mas uma grosseria. Esta tentação dos ‘aristocratas’ (p. 262)  da Igreja se assemelharem aos sábios, e competirem com outras associações civis, sem perceber a distância. O conhecimento, a cultura, a arte, a influência, ‘não muda a vulgaridade manifesta do tecido conjuntivo em que toda a existência católica se deve acomodar decida para dia e na qual é preciso se inserir’ (p. 264). 

De Lubac, recordando A. Malroux com ‘estas pobres figuras… respondem mal a esta voz profunda’, bem como recordando Pascal com o extremo contraste da complexio oppositorum ‘grandeza e miséria do homem’. Renata com Newman: ‘nós tínhamos poucas coisas para mostrar’ (p. 269).

  

«Que ele possa permanecer como o Sol[4] e como a Lua, de geração em geração. (Sl 72,3-4)»

Em Paradoxo e Mistério da Igreja, de 1967, Henri de Lubac mostra que a Igreja é um mistério, no sentido de desígnio.

Jesus Cristo é o mistério único, e 'a Igreja é um mistério mas um mistério derivado. Ela é mistério porque vem de Deus' (p. 33). 'Pode-se falar como Dídimo o Cego de uma constituição lunar da Igreja' (p. 36) uma vez que a sua luz não vem dela mesma mas de Cristo.

A imagem da lua remete-nos, por um lado, ao obscurecimento do sol - por exemplo, na paixão de Cristo, o sol obscureceu-se - e às fases da lua, lembrando que 'a Igreja, neste século, é uma Igreja sempre morrente, e que é dessa forma que ela se renova' (p. 37). Por outro lado, a imagem da lua indica-nos a aurora e 'anuncia a absorção definitiva da lua no seu sol' (p. 38).

Em Paradoxo e Mistério da Igreja, de 1967, Henri de Lubac refere que é sempre necessário ajustar o nosso olhar a um ponto focal da Igreja, uma vez que apenas conseguimos ver uma parte - uma perspetiva ou os 'acidentes' da Igreja; depois, é que vamos ajustando a visão para ver o seu enorme 'paradoxo que nos vai introduzir ao seu mistério' (p. 12); por último, vemos o seu mistério como unidade profunda, que De Lubac, citando Teilhard de Chardin, descreve como "eixo priveligiado central', 'eixo de progressão e de assimilação' ou 'corrente axial da vida' (p. 29) - quer dizer, que a Igreja é um vector que leva os homens a Deus.

Neste sentido, segundo o autor, não se compreende o mistério da Igreja sem entrar nele, de modo que o mistério da Igreja não pode ser compreendido de fora, e de forma direta e clara. Esse mistério da Igreja pode ser contemplado quando ele passa através de nós - 'o mistério da anima ecclesiastica' (p. 17) que passa e demora nos membros da Igreja- e que se reflete nas inteligências. A este propósito diz o teólogo que 'o mistério da Igreja como todo o mistério não pode ser apreendido por uma vista directa e simples, mas apenas através da sua refracção nas nossas inteligências' (p. 43).     

Mas a Igreja é feita de homens e não apenas de mistério. Acentuar um lado ou o outro seria cair numa espécie de monofisismo ecclesiale, de unilateralidade, parecido ao monofisismo cristologie (p. 49). “ A Igreja esconde a sua glória numa veste obscura; ela traz a contradição nela mesma’ (p. 51). A Igreja é visível e invisível, a Igreja tem a autoridade e a Igreja tem o espírito. A igreja é nesse sentido sacramento - mistério - porque tem estes dois lados visível e invisível, real e simbólico, lados que estão unidos pela sua eficácia. São aquilo que significam. 

Henri de Lubac, no texto Église et Corps mystique, de , afirma que ‘a Igreja é um misterioso organismo que não será actualizado a não ser no fim dos tempos; não mais como meio para unificar em Deus a humanidade, mas como o próprio fim, a unidade consumada’ (p. 45). ‘A Igreja é como o Tabernáculo no deserto diante do Templo de Salomão’ (p. 47). As figuras mostram que a Igreja não é Corpo de Cristo mas já é o Corpo de Cristo, uma vez que entre o fim e o meio há uma relação de correspondência, não apenas uma relação extrínseca (p. 48). A Igreja vista apenas numa perspectiva espiritual - uma Igreja dos Santos  - é uma pura abstração; a Igreja não ê uma espécie de hipostase transcendental (p. 38); mas ela tambem não apenas uma federação de assembleias locais. A Igreja é de facto um mistério, o sacramento de Cristo, a Imagem de Cristo. A ecclesia precede logicamente os cletoi, da mesma forma que a convocatio precede a congregatio (p. 39).