segunda-feira, 18 de março de 2024

‘Uma geração de kids definitivos’ em Michel Houellebecq

1. Há já um tempo que queria ler M. Houellebecq. Não sei se o deva ler, ou, melhor, se não perco tempo em lê-lo. Há outros autores muito mais proveitosos ao espírito e à missão. Se quisesse fazer um comentário ao livro ‘A possibilidade de uma ilha’ entraria pela discussão sobre Teilhard de Chardin. Daniel defronta-se com Robert, um leitor de Teilhard - ‘na presença de um leitor de Teilhard de Chardin sinto-me desarmado, desconcertado, prestes a desfazer-me em lágrimas’ (73). Porque Teilhard é o pensador do Cristo Alfa e Omega, do donde e para onde do homem e da matéria. Há nele uma lenta cristificação do mundo; em Cristo, os processos ganham sentido, e, nesse ganho, tudo se transforma. Para Daniel, no entanto, só há o homem e a mulher, ‘um belo arranjo de partículas, uma superfície lisa, sem individualidade, cujo desaparecimento não teria importância nenhuma’; só há a matéria bruta, e a brutalidade da realidade e dos acontecimentos sociais; o homem tem apenas duas fases, a da ascensão, até aos quarenta, e a da degradação física e social, até à morte. Na primeira fase, cresce o sucesso, a riqueza, as realizações, e, com eles, o estatuto, a mansão de 17 quartos, os carros de alta cilindrada, o número de amigos, de mulheres disponíveis para o sexo; na segunda, cresce a ansiedade, o desejo insatisfeito, a confrontação com homens mais novos, a possibilidade da rejeição. ‘A minha encarnação degrada-se. As nossas noites já não vibram de terror e de êxtase, mas vamos vivendo, sem alegrias nem mistérios, o tempo parece-nos breve’. Diante da brutalidade do mundo, onde encontramos todo o género de vazio - abandono, vazio, solidão, enfermidade, envelhecimento, doença - e todo o género de violência - racismo, tortura, barbárie, pedofilia, homicídio, parricídio - Daniel compreende que é preciso fazer qualquer cosa. Os revolucionários respondem com uma brutalidade acrescida; os decoradores, como Vincent, procuram atenuar o sofrimento, criando uma nova estética, um mundo idílico;  os apaziguadores, como os eloimitas, satisfazem desejos, contemplam os bonismos da natureza, as maravilhas do ADN, as esperanças da ciência. Daniel é um experimentador de todas essas vivências, mas, sem se iludir com o naufrágio do homem e da civilização, prefere 'não viver no meio dos kids'. De nada vale tentar apaziguar-se. A realidade é dura. ‘Num mapa de escala 1/200 000, toda a gente parece feliz; à escala 1, encontramo-nos no mundo normal, o que não tem nada de divertido; mas se aumentarmos mais escala, entramos num pesadelo: começamos a distinguir os ácaros, as micoses, os parasitas, que roem as carnes’ (233).  No fundo, nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos. A única solução para quem, como Zaratustra, anuncia que o amor morreu, será desaparecer. 'Fui dominado por um intenso desejo de desaparecer, de me fundir num vazio luminoso, activo, vibrante de potencialidades perpetuas' (363).

2. Os vários aspectos da existência humana são abordados de uma forma despersonalizada, quase mecânica, e determinista. Todos esses aspectos existenciais são um espaço de evangelização, no sentido de serem um lugar que pode receber uma boa notícia. A de que o amor não morreu. É por isso que o Evangelho continua a ser um testemunho do realismo da esponsalidade, da geração, da corporeidade, da amizade, da virtude. Contra o irrealismo, ou melhor, o hiper realismo que outra coisa não é que um materialismo. Contra o materialismo, a realidade da vida e do amor; contra o nihilismo, o sentido da existência.


Imagem do pintor hiperrealista Guillermo Lorca 

domingo, 3 de março de 2024

O SAGRADO CORAÇÃO, O AMOR ARDENTE PELA HUMANIDADE

1. Estamos a celebrar 350 anos das aparições do Sagrado Coração de Jesus a Santa Margarida Maria de Alacoque (1638-1690). Estas aparições provocaram um estrondo tão grande que encontramos hoje em quase todas as igrejas uma imagem do Sagrado Coração de Jesus. Encontramos, aliás, em todas elas, uma imagem do Sagrado Coração de Jesus e uma imagem de N. Sra de Fátima.

A primeira aparição ocorreu a 27 de dezembro de 1673, no dia do apóstolo S. João. Margarida Maria tinha entrado na capela do mosteiro da Visitação, em Paray le Moniale, para fazer a adoração noturna. Enquanto adorava o Santíssimo Sacramento, o Senhor Jesus apareceu-lhe com o Coração coberto de espinhos. A religiosa continuou em adoração, reclinando-se sobre o lado de Jesus, e ouvindo o batimento do Seu coração. Vê, depois, o Senhor Jesus pegar no seu coração - como um pequeno ponto - um átomo - que introduz dentro do Seu próprio coração, para, depois, o voltar a colocar no de Margarida Maria. Diz-lhe nesse momento ‘O meu coração arde de amor pelos homens. Doravante dou-te o nome de discípula do meu Sagrado Coração’. Ao fazê-la discípula do Coração, Jesus pede a Margarida uma resposta de amor. 

A segunda aparição ocorreu na primeira sexta feira de junho de 1674. Estando na capela do mosteiro em adoração ao Santíssimo Sacramento, Margarida Maria vê Jesus resplandecente, todo Ele rodeado de luz e de fogo, e vê as cinco chagas de Jesus como cinco sóis. Nessa aparição, o Senhor Jesus mostra-lhe o Seu lado aberto, e o Seu coração como uma fornalha, que é a fonte de luz do corpo do ressuscitado. Enquanto lhe mostra o lado aberto, Jesus diz-lhe ‘tu, ao menos, dá-me esta alegria de reparar o mais que possas’. O Senhor pede-lhe então para fazer uma Hora santa, das 23.00 às 00.00, dessa quinta em honra da agonia do Getsemani, ‘para acompanhar-me na humilde oração que fiz ao Pai no meio de todas as minhas angústias’ e para comungar nas primeiras sextas feiras de cada mês. Ao pedir a Hora santa e a comunhão na primeira sexta feira Jesus pede a margarida uma resposta de amor.

A terceira aparição ocorre a 13 de junho de 1675. Durante a adoração ao Santíssimo Sacramento, o Senhor Jesus aparece a Santa Margarida Maria, mostra-lhe o Seu coração rodeado de espinhos e diz-lhe ‘eis este coração que tanto amou os homens (voilá ce coeur qui a tant aimé les hommes), e que nada poupou até consumir-se e esgotar-se de amor. E em troca só recebe ingratidões, irreverências, sacrilégios e ofensas’. O Senhor Jesus pede, por fim, a Margarida Maria que ‘a primeira sexta feira depois da oitava do Corpo de Deus seja dedicada a uma festa particular para honrar o meu coração’. Ao pedir a festa do Sagrado Coração, Jesus pede a Margarida uma resposta de amor.

A primeira festa em honra do Sagrado Coração de Jesus foi celebrada por Santa Margarida Maria e pelo padre jesuíta S. Claude de la Colombiére em 21 de Junho de 1675, tendo sido oficializada no mosteiro de Visitação em 1686. A Festa do Sagrado Coração foi estendida a toda a Igreja em 1856 e, desde 2002, é o Dia de oração pela santificação dos sacerdotes.

Num tempo de muito rigorismo, moralismo e dogmatismo, marcado pelo juízo, pela pena e pelo castigo, as aparições do Sagrado Coração de Jesus a Santa Margarida Maria de Alacoque mostram que o Coração de Jesus é um coração ardente de amor por todos os homens. Nestas aparições de Paray le Moniale, o Senhor Jesus, no Seu Sagrado Coração, mostra-se de forma pessoal, direta e íntima, a Margarida Maria, e deixa-Se tocar por ela. Margarida Maria foi, de facto, uma discípula do Coração de Jesus e uma mensageira do Seu amor por todos os homens. 

2. Quais os textos evangélicos que falam do Coração? O Padre Claude de la Colombière era o orientador espiritual e o confessor das religiosas do mosteiro da Visitação, e conhecia muito bem Margarida Maria e a sua experiência do Sagrado Coração de Jesus. Com certeza que o padre jesuíta teve de ajuizar a verdade das aparições, e de confrontá-las com o Evangelho e com a Tradição da Igreja. Será que o Evangelho descreve o Coração de Jesus, como amor pessoal, direto e íntimo, e como amor aberto a todos os homens? Será que é apenas uma experiência mística isolada, ou é uma experiência de amor ardente, que deve ser dilatada? Escolhi três pequenos textos do Evangelho que nos ajudam a perceber como o Coração de Jesus no próprio Evangelho é uma relação de amor pessoal, direto e íntimo, e uma fonte de amor e de vida para o mundo:
Mateus 11: Vinde a mim, todos os que estais fatigados e oprimidos, e eu vos darei descanso. 29Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas vidas, 30pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.

João 7: 37No último dia, o mais importante da festa, Jesus pôs-se de pé e clamou, dizendo: «Se alguém tem sede, venha a mim; e beba 38quem acredita em mim. Como diz a Escritura: Do seu coração brotarão rios de água viva»39Disse isto acerca do Espírito, que estavam prestes a receber os que nele acreditaram; de facto, ainda não havia Espírito, porque Jesus não fora ainda glorificado.

João 19:31Os judeus, visto que era a Preparação, para que os corpos não permanecessem na cruz durante o sábado – era um grande dia o daquele sábado –, pediram a Pilatos que lhes quebrassem as pernas e fossem retirados32Vieram, então, os soldados e quebraram as pernas do primeiro e do outro que tinha sido crucificado com ele. 33Mas, ao chegar a Jesus, como o viram já morto, não lhe quebraram as pernas. 34No entanto, um dos soldados trespassou-lhe o lado com uma lança; e saiu imediatamente sangue e água.

3. Qual é a espiritualidade do Coração de Jesus? A espiritualidade do Sagrado Coração de Jesus é a espiritualidade do amor de Deus e da abertura de Deus a todos os homens. Trata-se de uma espiritualidade que pode ser resumida na frase: Jesus ama-me, Jesus ama todos os homens, Jesus deseja que O amemos e que nos amemos uns aos outros. Escolho para sintetizar quatro dimensões da devoção ao Sagrado Coração de Jesus:
a) Espiritualidade da abertura do coração. No evangelho de S. João, Jesus diz ‘Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. (...) Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas. Ninguém ma tira sou Eu que a dou livremente’ (Jo 10,10-11,18). O Sagrado Coração de Jesus significa o coração humano de Jesus, é o centro originário da realidade humana de Jesus; o Sagrado Coração é a própria existência - a própria vida - de Jesus, oferecida a cada um de nós. A vida de Jesus é uma vida entregue, e o seu coração é um coração aberto a todos: aos familiares e aos conterrâneos de Nazaré, aos discípulos e aos habitantes das aldeias vizinhas, aos judeus e aos pagãos, aos homens e às mulheres, aos velhos e aos novos, aos pobres e aos doentes, aos publicanos e aos fariseus, aos políticos e aos sacerdotes.

O Sagrado Coração de Jesus é o sinal de que o Coração do Ressuscitado é um Coração aberto a todos os homens. Nos evangelhos estão representados todos os homens de todos os tempos e de todas as geografias. Os evangelhos mostram-nos que o Senhor Jesus a todos chama à vida e a todos chama à glória; o Senhor Jesus ama todos os homens, e a todos quer oferecer a salvação. Sem exclusões e sem condições. O Sagrado Coração é o sinal de que Jesus existe agora, de que ama incondicionalmente, e de que acompanha o ritmo da humanidade.

Se por um lado o Sagrado Coração de Jesus é o sinal do amor e da abertura de Deus a todos os homens, por outro, o Sagrado Coração pede também uma resposta de abertura e de amor. Se ‘eu tenho uma única doença - todo o amor que me falta - tenho (também) uma única salvação: todo o amor que Deus tem por mim’. Jesus pede-nos também uma resposta de amor como pediu a Margarida Maria. 

b) Espiritualidade de transformação de coração: de libertação da lógica da compra de amor e da lógica do medo. O Senhor diz no evangelho que ‘é do coração que procedem más intenções, homicídios, adultérios, prostituições, roubos, falsos testemunhos difamações. São estas coisas que tornam o homem impuro’ (Mt 15,19-20). Estes são os frutos - os resultados - de não sabermos amar.

Fabio Rosini diz que nós, desde que entrámos no mundo, contamos apenas connosco próprios e com a satisfação das nossas carências pessoais: vivemos, por isso, na lógica de comprar amor - de mendigar amor - de instrumentalizar o amor - para sermos recompensados; e que, por essa razão, acabámos por entrar na lógica do medo de não sermos amados e de não obtermos a nossa compensação. As crianças dão um beijo à avó se virem em volta dela qualquer coisa que lhes interesse! Os adultos procuramos agradar ou cativar para sermos considerados ou estimados por alguém! Os exemplos podem ser muitos... 

Na lógica do comprar amor, mostramos que precisamos de ser gostados, estimados, reconhecidos, considerados, elogiados, satisfeitos. Temos horror de sermos tolerados, desconsiderados, de nos sentirmos a mais, de sermos desprezados, humilhados, ofendidos. Temos medo de não ser aceites, de não ser respeitados, de sermos rejeitados, etcO coração está cheio de medos: medo de não ser amado, medo de não ser apreciado, medo de não ter importância, medo de ser descartável, medo de ser rejeitado, medo de de desiludir, medo de perder o controlo, medo de sofrer. 

A lógica do medo dentro do homem é a autossabotagem de si próprio, e da sua felicidade. É a lógica de contar apenas comigo e de instrumentalizar todas as relações. 

O Sagrado Coração - o amor humano de Jesus - liberta-nos da lógica de comprarmos amor e da lógica do medo. O Sagrado Coração põe um só Senhor, e um só Espírito no coração, de tal modo que sei que a minha vida e o meu amor estão guardados na vida e no amor de Jesus. No Filho e no Espírito clamo Abbá Pai. 

O Sagrado Coração põe virtudes cardeais (justiça, fortaleza, temperança e prudência) no nosso coração; coloca virtudes teologais (fé, esperança e entendimento); e dons espirituais (entendimento, ciência, sabedoria, conselho, justiça, piedade e temor de Deus). Transforma o amor-de-mim e a vida-para-mim num amor-para-ti e numa vida-para-ti.

c) Espiritualidade de reparação do amor ferido: espiritualidade da consolação e da cura do amor ferido. Diz o Senhor ‘Vinde a mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei’ (Mt 11,28). Quando entramos na lógica de comprar amor e na lógica do medo entramos na dependência dos outros. A dependência dos outros traz-nos muitas feridas - feridas relacionais - porque as nossas mendicâncias, as nossas indigências, de amor, não são sempre correspondidas. A nossa procura de amor recebe muitas vezes a resposta das muitas indiferenças e desconsiderações; de murmurações, críticas e acusações; desprezos, humilhações e abusos; rejeição, abandono e inimizade. 

Essas respostas criam também enormes feridas interiores, e geram sentimentos contrários ao amor, como o ressentimento, o rancor, o ciúme, a inveja, a ira, o ódio, a violência, etc... mas também o autodesprezo, a autocomiseração, a autovitimização. 

O Sagrado Coração de Jesus deseja reparar as nossas feridas relacionais e as nossas feridas interiores. O amor de Deus derramado no nosso coração é maior que a nossa dependência, condicionamento ou sujeição aos outros. O Sagrado Coração de Jesus ajuda-nos a viver na liberdade dos filhos de Deus; faz-me compreender que sou filho, não servo, ou escravo, ou vítima. 

d) A espiritualidade do repouso do coração. 
Diz o Senhor no evangelho ‘tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para as vossas almas’ (Mt11,29). O Sagrado Coração traz-nos paz e repouso.

Desde o livro do Génesis que uma das características de Deus é a de ter entrado no seu repouso: ‘no sétimo dia, Deus repousou de todas as suas obras’. Também no final da Epístola aos Hebreus se fala do repouso de Cristo: ‘Empenhemo-nos, portanto, por entrar nesse repouso’ (Heb 4,11). O salmo mais pequeno da Bíblia, o salmo 131, diz ‘Senhor, não se eleva soberbo o meu coração, nem se levantam altivos os meus olhos, não ambiciono riquezas, nem coisas superiores a mim. Antes fico sossegado e tranquilo como criança ao colo de sua mãe’.

São João da Cruz diz que ‘alma que anda no amor não cansa nem se cansa’. 

Infelizmente, andamos todos pouco repousados, pouco descansados; às vezes, inquietos, perturbados, desiquilibrados, frustrados, angustiados, depressivos. Isto acontece porque não estamos na lógica do coração, na lógica da confiança e da entrega, mas na lógica do medo. Para todos aqueles que não têm descanso, o Coração de Jesus é lugar de tranquilidade, de sossego, de repouso; para todos aqueles que não têm paz, o Sagrado Coração é lugar de descanso.

4. O nosso espaço interior. Um espaço fechado a Deus e um espaço dessacralizado.

Neste processo de interiorização dos sentimentos de Jesus e de conformação da nossa vida à vida de Jesus há uma condição muito importante: precisamos reconhecer que há um espaço interior - o coração - onde se realiza o encontro com Deus

Na Escritura e na Tradição da Igreja, este espaço interior é designado por coração, espírito, alma, morada, templo, santuário. É um espaço hospitaleiro, para o doce hóspede da alma. É uma espécie de centro da alma - fina ponta da alma - um espaço onde ninguém entra, e que está apenas reservado a Deus e que nos revela plenamente. 

Sucede,porém, que este espaço do coração como encontro com Deus está fechado a Deus! Nós cultivamos muito a dimensão corporal (corpo, saúde, alimentação), a dimensão psíquica (emoções, sentimentos, relações, bem estar), a dimensão intelectiva (inteligência, conhecimento, tecnologia). Se trabalhar a dimensão corporal vou colher resultados corporais, se trabalhar aspectos psíquicos vou colher resultados psíquicos, e se for conhecimento vou colher mais conhecimento. Se não trabalhar a dimensão espiritual não vou colher os frutos do Espírito.

Nós trabalhamos pouco a nossa espiritualidade. O Sagrado Coração é remédio para quem trabalho pouco a sua espiritualidade, é cura para quem reza pouco! S. Paulo na Carta aos Romanos (8,8) afirma que o Espírito fala ao nosso espírito, quer dizer, que o Espírito penetra o espírito humano e transforma-o. Nenhuma criatura pode preencher este espaço espiritual a não ser Deus, e, por isso, ele mantém-se vazio, por cultivar, em tantas pessoas.

Note-se que para além de ter-se fechado este espaço interior, ele foi desalojado, dessacralizado ou profanado, pelas ‘câmaras profanas’ da modernidade. No princípio da modernidade, o espaço interior foi visto como um espaço privado, uma intimidade comigo próprio, do eu-mesmo, da consciência, da psicologia, do sentimento. Jean-Louis Chrètien diz que Emanuel Kant desalojou Deus do espaço interior e substituiu-o pela lei moral e pelo imperativo categórico, Rousseau substituiu-o pela subjectividade, Freud pela pulsão. 

O certo é que este espaço interior existe. Pode atualmente chamar-se subjectividade, interioridade, subconsciente ou profundidade. As palavras significam que há muito mais, que não está debaixo de nós, mas acima de nós; significam que há uma geografia interior a percorrer para abrir o templo reservado a Deus e trazê-lo de volta ao espaço que Ele criou para si. O Sagrado Coração de Jesus como sinal de amor por todos os homens, e sobretudo como lugar de transformação, de reparação e de repouso do coração humano, devolve-nos por isso o coração como lugar de encontro do homem com Deus.

Imagem do Cristo Rei de Almada 

Torres Novas, Igreja da Misericórdia, 3-3-2024

   

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

UM LIVRO PARA A QUARESMA DE 2024: A Arte de Curar, de Fabio Rosini

O padre Fabio Rosini é um padre italiano, da diocese de Roma, cujos livros vão sendo traduzidos para português. Depois da A Arte de Recomeçar, de 2021, sobre o discernimento, a partir dos seis dias da criação, surgiu A Arte de Curar, de 2023, 342 p., sobre a cura do amor, a partir do relato da hemorroíssa e da ressurreição da filha de Jairo. Este livro pela sua profunda espiritualidade faz-me lembrar outros quase-clássicos como O Curador Ferido ou O Filho Pródigo, do Henri Nouwen, ou O Elogio da Sede, do Cardeal Tolentino Mendonça. 

Fabio Rosini aborda o medo enquanto sistema que impede, distorce ou diminui o amor. O medo - o medo de não ter importância nenhuma, de não ser reconhecido, de ser rejeitado, de desiludir, de sofrer, de cair na frustração, de perder o controlo, etc… - é a causa de uma série de patologias relacionais. O medo é ‘o golpe que está por detrás da vergonha, da falta de liberdade, do encerramento, das violências, do espírito possessivo, das dependências, dos apetites desordenados, das timidezes, dos autodesprezos, da frieza dos corações, das torturas ardilosas, das agressividades, das inseguranças e das dificuldades afectivas de qualquer tipo’ (p. 73). 

Esta descrição das nossas atitudes é um conjunto de ‘sintomas’ de ‘patologias relacionais’ que não posso negar, nem banalizar, nem sequer contrariar. Fabio Rosini pede que cada um dos nossos sintomas seja enfrentado e questionado com ternura por nós mesmos e ao mesmo tempo com verdade: porque me comporto assim? Com que medo estou em contacto? Só está clareza nos dará lucidez para nos magoarmos menos. ‘Então, não se trata de dar cabo do medo à força, ou, pior ainda, de negá-lo. Que devo fazer, então?’ (p. 83). 

Para o autor, os sintomas revelam uma patologia relacional causada pelo medo, e o próprio medo tem uma origem nas nossas vivências pessoais que ‘autossabotaram’ o nosso sistema operativo. Muitas das circunstâncias da nossa vida criaram dentro de nós uma falsidade, uma mentira, acerca de nós próprios, que foi sendo interiorizada, assumida, a maior parte das vezes de forma inconsciente, e que nos roubou a nossa própria identidade. Rosini é peremptório no que respeita à auto-aceitação da nossa auto-diminuição como pessoas: ‘o espaço destas mentiras é o pensamento triste. Estes pensamentos autodestrutivos ou autoexaltantes têm o contexto mental da melancolia autocomiserações, daquela tristeza adocicada a que se referiu o papa Francisco’ (p. 95). 

Assim, ‘de um modo geral, a tonalidade desse pensamento tem que ver com a má metabolização de um acontecimento passado, lido em sentido triste, doloroso, sem qualquer aspecto construtivo’ (p. 97). Para o autor, um conjunto de vivências introduziram o autodesprezo e a vergonha nós nossos corações. ‘Recapitulemos o percurso feito: temos atitudes erradas que são as nossas patologias afectivas, produzidas pelos nossos medos, e estes são gerados por convicções erradas, que os tornam devastadores. Tudo isto produz dor e então tentamos salvar-nos por estratégias que pioram a situação’ (p. 112). Habitualmente, diz o autor, como a hemorroíssa do evangelho que procurará muitos médicos, nós também procuramos muitos terapeutas para os nossos problemas. 

   (Elvis Spadoni, Emorroissa, 2017)



quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

350 anos do Sagrado Coração

1. As aparições do Sagrado Coração de Jesus 

Neste ano de 2024 celebramos 350 anos das aparições do Sagrado Coração (sobretudo quatro comunicações) a Santa Margarida Maria de Alacoque (1638-1690), ocorridas no Mosteiro da Visitação, em Paray-le-Moniale, entre 27 de dezembro de 1673 e 21 de Junho de 1675.

A primeira aparição ocorreu no dia de S. João, o apóstolo que viu o coração de Jesus a ser trespassado e a jorrar sangue e água. Nesta primeira aparição, o Senhor vai dizer-lhe na capela do mosteiro que ‘foste tu que eu escolhi, por causa da tua fraqueza e da tua ignorância, assim ver-se-á bem que tudo vem de mim’. Nesse mesmo instante, o Senhor tomou o seu Coração e colocou-o no coração de Margarida Maria que sente a união, enquanto ouve ‘doravante dou-te o nome de discípula do meu Sagrado Coração’. 

A segunda aparição em 1974 acontece numa comunicação do Senhor a Margarida Maria durante a adoração do Santíssimo Sacramento. Jesus pede à religiosa para comungar de modo mais frequente, e para comungar na primeira sexta feira de cada mês; depois pede para fazer uma Hora santa em cada quinta feira das 23.00 às 24.00 horas, ‘para acompanhar-Me na humilde oração que fiz então a meu Pai no meio de todas as minhas angústias’. A superiora não lhe permite o cumprimento das petições da parte do Senhor, concedendo-lhe permissão após a cura milagrosa de uma febre grave.

Numa terceira aparição, o Senhor pede a Margarida Maria para dizer à comunidade que o Senhor se queixa da falta de devoção de algumas religiosas. Santa Margarida teve muita dificuldade em fazer este anúncio, e fá-lo no capítulo de comunidade, sentindo imediatamente a indignação, a revolta e a arrogância, das irmãs. Aquela era a maior prova da sua vida. Nesta ocasião, o padre jesuíta Claude de la Colombière aparece na comunidade das visitandinas para ser o confessor das religiosas. O Padre de la Colombière confirma as aparições do Senhor e as graças que Margarida Maria tinha recebido.

A última aparição, a 13 de junho de 1975, acontece na festa do Corpo de Deus. O Senhor aparece e Margarida Maria vê o Senhor que lhe mostra-lhe o seu Coração dizendo ‘Vê o meu Coração que tanto amou os homens, que nada poupou até consumir-se e esgotar-se de amor. E em troca não recebe da maioria outra coisa que ingratidões, por suas irreverências, sacrilégios e desacatos neste sacramento de amor. (…) Por isto te peço que a primeira sexta feira, depois da oitava do Corpus, se célebre uma festa particular para honrar o meu Coração. (…) Prometo-te que o meu Coração derramará uma abundância de bênçãos do seu divino amor’. 

A primeira festa do Sagrado Coração será celebrada uma semana depois, a 21 de junho de 1675, por Margarida Maria e pelo padre de la Colombière que se consagraram pessoalmente ao Sagrado Coração. Santa Margarida Maria continua a sua vida de oração, a sua vida de reparação e as suas grandes penitências, tendo sido chama para Mestra de noviças. A festa será celebrada em todo o mosteiro em 1986. Santa Margarida Maria pinta o primeiro quadro do Sagrado Coração em 1985. Em 1988, começará a ser construída uma Capela em honra do Sagrado Coração. 

Uma nova superiora é eleita em 1690 e duvida das graças recebidas por Margarida Maria, e é tratada com muito desprezo e muitas humilhações. Santa Margarida Maria continua a sua vida de oração, a sua vida de reparação e as suas grandes penitências. Margarida Maria morre em 17 de outubro de 1690.

2. Entrar nos sentimentos de Jesus 

3. Receber a  graça de repouso, de consolação, de poder do Espírito e de misericórdia. 

A união ao Sagrado Coração dá a graça de repouso. O Senhor Jesus disse Vinde a mim todos os que andais cansados e oprimidos que Eu vós aliviarei. Vinde a mim que sou manso e humilde de coração. 




DIOCESE DE SANTARÉM. A caminho dos 50 anos

II. Muito para além de Adap's, precisamos de 'evangelizadores' com 'carta de missão'. Muito para além de 'conselhos pastorais' precisamos de verdadeiras 'equipas de animação missionária'

Um dos maiores desafios de uma Diocese - e de uma Paróquia - será sempre o desafio da evangelização, ou o de tornar-se uma Diocese e uma Paróquia missionárias. Sucede, porém, que a missão da Igreja e a evangelização têm estado muito dependentes da liturgia - e não da palavra - ou seja, têm estado muito dependentes da garantia da missa, dos sacramentos e dos atos de piedade, em todas as localidades. Uma missão evangelizadora que se autolimite nesta dimensão acabará por concentrar-se numa única pessoa - no ministro ordenado - que não conseguirá chegar a todo o lado. É o que tem acontecido num 'paradigma de manutenção de horários de missa'.

Procurei dizer, no artigo anterior, que a valorização do Domingo e o empenho de todos na celebração festiva da Eucaristia não são apenas importantes mas prioritários. Mas há mais missão que nasce de uma missa e também há mais missão que converge para uma missa. Numa Diocese - e nalgumas Paróquias mais ou menos rurais - como são boa parte das nossas - há aldeias, lugares e casais, que podem convergir para a mesma missa sem que isso signifique o abandono das suas igrejas, capelas ou oratórios; da mesma forma, da mesma missa pode advir uma maior missão para esses lugares. Precisaremos, por isso, de evangelizadores, de missionários, nos próprios lugares, ou então enviados para esses lugares. 

O ministério de catequista recentemente reinstaurado pelo papa Francisco pode muito bem ajudar a garantir e a enviar missionários por todo o território, que não o mantenham apenas, mas o 'missionem', o encontrem, o convidem. No que respeita este ponto, noto que em todo o território francês, em 2012, cerca de 9.500 leigos eram portadores de uma "carta de missão" (lettre de mission) escrita pelo bispo diocesano que nomeava certos cristãos para determinadas missões eclesiais. Pode, na verdade, haver mais missão de visita e de convite, num pequeno lugar, feito por um evangelizador que não precisa necessariamente de ser um animador de 'Assembleia dominical na ausência de presbítero'. Há mais missão para além das celebrações da palavra.

É também precisa uma equipa de missionários numa paróquia. Um padre não pode visitar sozinho todas as aldeias e todos os lugares, da mesma forma que não pode preparar sozinho a celebração do Domingo sem uma verdadeira equipa missionária. Às vezes os nossos conselhos pastorais são um belo grupo de preparação de uma festa, de uma procissão ou de uma angariação de fundos, mas não significa que seja um belo grupo missionário. Hoje precisamos muito de uma equipa missionaria que não seja apenas o coletivo das representações dos grupos e dos movimentos paroquiais, mas que seja um grupo que partilhe a mesma urgência missionária, a mesma visão missionária e a mesma convergência dos meios disponíveis.

James Mallon, a este propósito, fala dos quatro pilares de constituição de uma equipa missionária. É preciso Unidade de visão, Equilíbrio de forças, Vulnerabilidade e confiança e Tensão saudável. Quer dizer, é necessário um grupo que tenha o mesmo alinhamento de visão, cujas pessoas estejam no seu carisma próprio, numa autêntica relação de fé, caridade e perdão, e na transparência da sua intenção. No fundo precisamos de equipas compostas por pessoas credíveis, disponíveis, contagiantes e dóceis ('ductíveis'), que compreendam que a Igreja serve para anunciar Cristo.       

I. Empregar 80% do tempo pastoral para encontrar 80% da comunidade dos irmãos. Da clássica regra 20/80 para a regra de ouro 80/80.

A Diocese de Santarém fará, em Julho de 2025, cinquenta anos da sua criação. A celebração do cinquentenário vai coincidir com o tradicional jubileu da Encarnação. Parece-me uma ocasião propícia para a ação de graças, a reflexão, a purificação e a projeção. Seria importante marcarmos a data com uma revisão de vida, mais do que com eventos físicos, ainda que eles sejam necessários. 

Nesta ocasião, e também porque se aproxima uma nova nomeação pastoral, voltei a consultar James Mallon, Renovação Divina, Paulus, 2019. O livro foi publicado em 2014, e foi sendo aprofundado noutro, entretanto traduzido como J. Mallon, Desbloqueia a tua paróquia, Paulus, 2020. Há um outro sobre a renovação da diocese - Beyond the parish, de 2019 (Au-delà de la paroisse, de 2022) - que ainda não está traduzido em português. 

No primeiro livro, Renovação Divina, J. Mallon aponta 10 prioridades para a renovação de uma paróquia (p. 270-271). As primeiras quatro são:

1. Dar prioridade ao fim de semana 

2. Hospitalidade

3. Música edificante 

4. Homilias fabulosas 

(…)

As dez prioridades contrapõem-se aos sete valores reais por que se pautam as nossas actuais paróquias: 

1. Preservação dos edifício 

2. Catequese centrada nas crianças 

3. Conveniência de horários 

4. Expectativas mínimas 

(…)

Sucede que as quatro primeiras prioridades estão centradas à volta do fim de semana (p. 95-101). O fim de semana - aponta o conhecido autor - é o único momento em que vemos 80% das pessoas da comunidade e, apesar disso, investimos apenas 20% do tempo pastoral a planear e a preparar esse encontro. 

Na verdade, é fácil gastar 80% da semana em assuntos que não têm que ver com o fim de semana, tais como cartório, administração, reuniões, grupos, exéquias, etc. Planeamos e preparamos a semana como se nela acontecessem as coisas verdadeiramente importantes, e descuramos o fim de semana como se ele fosse ‘um acréscimo, um leve interromper do trabalho real, que decorre de segunda a sexta’ (p. 96). 

Não há dúvida de que a prioridade de qualquer paróquia e de qualquer sacerdote deveria ser o fim de semana, a celebração da eucaristia e o encontro da grande comunidade. É preciso ultrapassar a ‘clássica regra dos 80/20’ como diz Mallon, para uma outra regra de ouro 80/80: 80% do tempo semanal para planear e preparar o encontro com 80% da minha comunidade, em vez dos habituais 20% empregados para encontrar 80% da nossa comunidade. 

Na verdade, é fácil verificar como descuramos o domingo. Basta ver as celebrações seguidas umas das outras, sem tempo de qualidade para desenvolver relações e realizar convites, para encontrar ou juntar as pessoas; sem um ministério de música que motive e faça sentido, sem acólitos, sem famílias, etc. Assim, de repente, não podemos celebrar mais de duas eucaristias no domingo de manhã, às 10.30 e às 12.00 (uma outra às 16.00). Deveríamos arrumar assim o domingo para estarmos uns com os outros com comunhão e alegria. 


segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

«A catequese como etapa privilegiada do processo de evangelização» (56)

A imagem que segue, de Isabelle Morelle, é extraordinária, e ilustra bem o caminho que a catequese está a fazer neste século XXI. O processo catequético é como a subida a uma grande montanha feita por um grupo de rapazes e de raparigas, acompanhados pelo seu guia. Ele e os quinze exploradores delinearam o percurso - o itinerário - e as fases de escalada do monte. À medida que forem subindo, cada qual vai manifestar um interesse diferente. Um que tenha apetência por animais, vai estar atento aos bichos; outro que tenha gosto de árvores, vai classificá-las por espécie; e, sucessivamente, os quinze mostrarão interesses distintos, e expressões diferentes do que pensam e sentem. 

Se o grupo tiver  um potencial pintor, fotógrafo, alpinista, agricultor, produtor, operador de turismo, biólogo, geólogo ou veterinário, poderá antever-se a diversidade de experiências e de opiniões. De fcato, cada um vai subir com os seus próprios interesses, parando em lugares que não lembrariam a ninguém, distinguindo coisas que vão escapar aos outros, dando-lhes sentido segundo as próprias motivações. Estamos a falar de um grupo que vai fazer um caminho, que, no fundo, acabarão por ser quinze caminhos diferentes, ainda que sincronizados e integrados uns nos outros. Ao guia - ao acompanhador - competirá o labor de acompanhá-los a todos, promovendo as suas motivações e fazendo integrar elementos que façam sentido!

O caminho da catequese no século XXI tem sido o de colocar 'a catequese dentro do processo de evangelização' (419). Ou seja, se toda a Igreja deseja ser missionária, e renovar-se de forma permanente, então a catequese contribui nesse processo como catequese missionária. Se a Igreja é toda ela um grande processo de evangelização, então a catequese contribui para o processo de evangelização. Para ilustrar essa mudança de paradigma eclesial e catequético, procurei no novo Diretório para a Catequese, de 2020, a palavra 'processo', num total de 129 localizações, e a palavra 'acompanhar', num total de 83 localizações; descobri - só no fim! - que existe a entrada 'Processo' e "Acompanhamento" no Léxico do Diretório (estas entradas são muito úteis para compreendermos os temas importantes no novo Diretório). 

Seguem-se as ideias que as contextualizam.

1. O grande processo de evangelização da Igreja; a catequese no grande processo de evangelização da Igreja











a) Processo de evangelização: toda a Igreja está em processo de evangelização. Toda a Igreja está em 'processo de renovação' (1), em 'processo de nova evangelização' (6), que é um 'processo eclesial sustentado e inspirado pelo Espírito' (31, 39), um processo que abrange dimensões e não apenas fases sucessivas (32). A Igreja precisa 'manter-se num processo de conversão espiritual e missionária' (244), 'é preciso dar início a um processo de conversão missionária que não se limita a manter o que já existe, mas que avança em direção evangelizadora' (300);

b) Processo de fazer discípulos missionários: a Igreja existe como Igreja missionária e existe para formar discípulos missionários. A Igreja pretende criar nas pessoas um 'processo permanente de conversão de vida' (35), suscitar 'processos espirituais' (43),  iniciar 'um processo de conversão a Jesus ajudado pela catequese' (78); deve procurar realizar um 'processo educativo de amadurecimento cristão integral' (80),  dar origem a 'um processo interior de reflexão' (198), a 'um processo de interiorização da fé' (220, 396);

c) Processo da catequese: a catequese insere-se no processo global de evangelização. Numa Igreja missionária, a catequese tem por finalidade ser 'uma etapa privilegiada de evangelização' das pessoas (56). Com efeito, 'no centro de cada processo de catequese está o encontro com Cristo vivo' (75), sendo, por isso, preciso 'fazer do processo de iniciação cristã uma autêntica introdução experiencial à globalidade da vida de fé' (242);

d) Processo pessoal: o processo catequético respeita o itinerário pessoal. Numa Igreja de nova evangelização e permanente formação, a catequese - como o catecumenado - pretende contribuir com  um 'processo dinâmico' e progressivo, correspondente com a biografia de cada pessoa (63), 'num processo que permite a maturidade da fé através do respeito pelo itinerário de cada crente' (166). De facto, 'a fé não é um processo linear e participa no desenvolvimento de cada homem', real,  concreto, histórico (224); a fé participa no 'processo lento e laborioso de personalização do indivíduo' (146), mesmo no 'processo contínuo de restruturação' do indivíduo (257) - 'o acto de fé é um processo interior intimamente ligado à sua personalidade' (257). Por isso, 'é importante que a catequese tome a peito o processo de receção pessoal da fé' (396);

e) O carácter comunitário do processo catequético. Numa Igreja fraterna, toda a comunidade se envolve na catequese, de modo que seja um 'processo que se realiza numa comunidade concreta' (64). Neste sentido, 'o catequista leva a cabo este processo educativo não individualmente, mas juntamente com a comunidade e em seu nome (150); a catequese envolve comunidade e família 'dando lugar a processos de evangelização recíproca entre os diversos sujeitos eclesiais envolvidos' (242);

f) Distinção entre processo, conteúdos e métodos. A pedagogia da fé requer um 'processo educativo' enriquecido com as ciências humanas, sobretudo a pedagogia e a didática (180), a experiência humana é constitutiva do processo catequético, do seu conteúdo e do seu método (197), 'outros elementos do processo catequético são a relação, o diálogo, a reflexão, o silêncio e o acompanhamento (203). 

g) O processo de evangelização interiorizado pelo próprio catequista. Este processo é 'um processo que toca o íntimo do catequista' (131), que faz com que todo o processo formativo seja uma experiência espiritual lida em perspetiva testemunhal e missionária (135).

2. 'O catequista é um perito na arte do acompanhamento' (113). Também a palavra acompanhar é muito utilizada no Diretório para a Catequese de 2020. Conseguimos localizar 83 palavras relacionadas com a ação de acompanhamento que surgem nos contextos que seguem.

a) A Igreja acompanhadora. A comunidade é o primeiro sujeito do acompanhamento e o serviço do catequista 'é vivido dentro de uma comunidade que é o sujeito primeiro do acompanhamento na fé' (111). O acompanhamento da Igreja é sinal do 'zelo da Igreja que acompanha os seus filhos ao longo do arco da sua existência' (232);

b) A Igreja acompanha todas as situações. O acompanhamento é sinal da abertura da Igreja; 'com zelo, respeito e solicitude pastoral, a Igreja acompanha aqueles filhos que estão marcados por um amor ferido' (234); as comunidades cristãs acompanham com realismo todas as realidades com luzes e sombras 'para as acompanhar de modo adequado e discernir a complexidade das situações' (234), 'acompanhar na fé e introduzir na vida da Igreja as situações irregulares implica tomar muito a sério cada pessoa' (35);

c) A catequese acompanha o amadurecimento da fé. 'O Diretório reitera a importância de a catequese acompanhar o amadurecimento de uma mentalidade de fé numa dinâmica de transformação' (3); 'a catequese forma para a missão acompanhando os cristãos no amadurecimento de fé' (50, 53, 55, 116); 

d) A catequese acompanha com paciência. O acompanhamento é feito de forma gradual e progressiva, 'acompanhando com paciência e respeitando os tempos reais de amadurecimento' (64), de modo 'a acompanhar no discernimento da vocação específica' (85), 'o acompanhamento de uma pessoa no crescimento e conversão é marcado necessariamente pela progressividade' (179, 420);

e) O catequista como acompanhador. O catequista é testemunha da fé, mestre e mistagogo, 'acompanhador e educador daqueles que lhe são confiados pela Igreja; o catequista é um perito na arte do acompanhamento' (113). Na verdade, 'são verdadeiros discípulos missionários enquanto sujeitos ativos da evangelização e habilitados pela Igreja a acompanhar e a educar na fé' (132); 'a figura do catequista se concretiza como alguém que acompanha e como um educador capaz de os apoiar nos processos de crescimento pessoal' (263), 'aquele que acompanha mantém conscientemente em relação a eles uma função educativa' (263), 'quem acompanha é capaz de colocar-se de parte, favorecendo nos sujeitos a assunção da responsabilidade' (263), 'o desafio pastoral é de acompanhar o jovem na busca da sua autonomia' (370), por isso, são necessárias figuras com autoridade (370);

f) A formação para o acompanhamento. É necessária a formação permanente para ajudar no acompanhamento dos irmãos (132); 'a Igreja sente o dever de formar os seus catequistas para a arte do acompanhamento pessoal, propondo-lhes a experiência de serem acompanhados, habilitando-os a acompanhar os irmãos. Este estilo requer uma disponibilidade humilde' (135); 'requer um certo acompanhamento no tempo, porque intervém no núcleo que fundamenta o agir da pessoa' (139.

3. A formação permanente. 

Note-se que a palavra 'formação' aparece sobretudo num 'formação permanente' (dos cristãos, dos padres, dos catequistas), e, como tal, é vista no contexto de 'formação de toda a vida cristã' (Intro); trata-se sobretudo de uma formação para o ser antes de ser uma formação para o estar (136). Assim, por exemplo, 'o catecumenado é uma verdadeira formação de toda a vida cristã' (63); 'a formação é um processo permanente' (131); a formação ajuda a reconsiderar e a repensar a ação, alimenta a espiritualidade, sustenta a consciência missionária (135).

Note-se ainda que a palavra 'formação' também aparece num contexto de formação dos grupos e dos catequizandos. A formação dos jovens é uma formação que abrange todas as dimensões da vida que permita 'a formação da identidade pessoal' (259), 'a formação e o amadurecimento na vida do Espírito' (260), 'a formação de consciências cristãs maduras' (261), 'a formação das características típicas do cristão adulto' (261), 'formação global' e 'formação integral' (314). 

Pormenor do deambulatório da catedral de Chartres



domingo, 21 de janeiro de 2024

Cristo, Cristo, e outra vez Cristo!

O Senhor no Evangelho volta a passar para chamar os que quer. É como a cruz processional que avança, do fundo da igreja, para chegar perto das pessoas da assembleia. As igrejas também são uma espécie de beira mar, por onde Cristo se passeia, e começa, do fundo, a chamar os homens para a pesca...

Visivelmente, o Senhor vem ter connosco na comunhão da eucaristia, mas só vem para se passear na alma, e voltar a chamá-la. O Senhor chama dentro da alma - 'eihhhhhhhh' -, como parece que o mar chama dentro dos búzios; penso verdadeiramente nunca ter feito a experiência dos dois...  

Ela - esta alma! - é outra beira mar, de fina areia, por onde Cristo avança, minúsculo e quase impercetível. “Há tantos anos que Cristo aqui habita, e que está na mesma praia que tu, que é espantoso como não formas a imagem do teu mestre e amigo...”

Há muitos anos - desde o seminário - que penso na habitação de Cristo na alma. Sempre tive a ideia de que as coisas da alma, como as coisas do mundo, se resumem na mesma pessoa - Cristo! Tudo é de Cristo, a palavra, o batismo, a eucaristia, a alegria e a tristeza, a vida e a morte, tudo é para Cristo... 

A praia, o barco, as redes, o peixe, o oceano, até o sol e o vento Lhe pertencem! Nós pescamos e tentamos só porque Ele continua a querer e a gritar lá do fundo - 'heihhhhhhh'; «Senhor,  mesmo que o mar esteja bravo, e não seja época, e não haja peixe?!» 

- «Sim!» 

- «Oh Senhor, mas o Simão diz que o barco é dele! E o André, agarrou as redes com os dentes!»

- «Diz-lhes que são tontos! E tu também és!»

- «Somos todos tontos, estão a ouvir?!»

O Senhor avança quando nos encontra pequenos. Os irmãos da comunidade Emanuel escutaram muitas vezes o Pierre Goursat a murmurar na oração 'petit, petit, petit...!' ou 'vermezito...!'. O Senhor avança quando nos encontra sem nada. Cristo, Cristo, e outra vez Cristo, avança como uma cruz processional, ou como uma hóstia da eucaristia, para morar em nós, mesmo que nos encontre pequenos, pelas perdas, pelos desgostos e pelas doenças, outra vez Cristo!