Preferia que o livro de Lídia Jorge, Misericórdia, 2022, se chamasse Dona Alberti, Cuidar com misericórdia! Seria mais fácil perceber o argumento e, até, mais próximo da realidade por que já passámos.
Mas Lídia Jorge quer dar ao título qualquer coisa de teologal porquanto toda a vida, nas idas e vindas, manifesta qualquer coisa de sobrenatural.
A história de Maria Alberta, de D. Alberti, é a história de uma mulher, idosa, que vive no lar Hotel Paraíso, em Valmares. Ali, recorda a vida vivida na sua casa, com os seus pertencentes, suas árvores e flores; recorda os pais, o seu sedutor, amigos e algumas personagens da sua história pessoal.
Numa espécie de exílio, de vida em suspense, mas na expectativa, com qualquer futuro que desconhece, encontra-se semanalmente com a filha e o genro, e habitualmente com os diretores e funcionários (Ana Noronha, Lilimunde, Nina), e os companheiros D. Joaninha, D. Luísa de Gusmão, D. Rita de Lyon, e o sargento João Almeida, o Sr. Peralta, e o Sr. Tó.
D. Alberti confronta-se também com personagens que com ela se sentam à mesma mesa ou no mesmo salão, ou se cruzam nos corredores ou no hall, que ali trabalham de forma muito sucessiva e intermitente, ou por ali passam como animadores, voluntários e visitas.
D. Alberti reflete nas limitações do seu corpo, opostas às do seu espírito; e medita sobre os cuidados que com ele têm as funcionárias, do lavar ao alimentar. As atitudes das funcionárias variam do cuidado e delicadeza à frieza e anonimato. Todas são diferentes. O mesmo se passa com as atitudes dos companheiros que variam da amizade e cumplicidade à distância e alheamento.
Mas o maior combate é interno. É o combate com o seu corpo, com o seu raciocínio e com a sua memória. Trata-se do combate com as suas capacidades, ou, melhor, com a própria vida! A vida é uma oportunidade única, de projeção, paixão e realização. D. Alberti sente-se com a 'vida' muito diminuída mas sem nunca desistir.
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